Resenha – O Sol na Cabeça
por Juliana Costa Cunha
em 11/07/18

Nota:

Geovani Martins é, talvez, o nome mais citado desde abril no meio literário brasileiro. Ele, o Geovani, tem 26 anos e é morador da favela do Vidigal, Zona Sul do RJ. Mas, nasceu em Bangu. Zona Oeste da mesma cidade.  Estava sem ter onde morar e pediu à mãe, dona Neide, arrego na sua casa, até conseguir escrever um livro. Este livro – O sol na cabeça.

Geovani já foi homem placa, embalador, entregador de panfletos, atendente de lanchonete, garçom, etc. Até ter o papo reto com a mãe e dizer a ela que a paixão pela literatura, cultivada desde que sua avó lia para ele gibis da turma da Mônica ia mudar sua vida. Em 2013 ele participou da Festa Literária das Periferias – FLUP e foi aí que as coisas começaram a mudar. Em 2015 participou da mostra paralela da Festa Literária de Paraty – FLIP, voltando a ela em 2017 com os rascunhos de O sol na cabeça na mochila. E aí, nesse momento, ele conheceu Antônio Prata e o Antônio o apresentou ao editor da Cia das Letras.

Toda essa história eu li nas diversas reportagens que foram publicadas sobre o autor e sua obra nas mídias nacionais. E eu acho que é importante citar ela aqui para situar aquelas pessoas que ainda não ouviram falar deste livro (se é que elas existem) sobre quem é Geovani Martins. De onde ele vem e como ele chegou até aqui. Porque tudo isso é sua obra. E, para mim, é este o grande potencial do livro.

São treze contos nos quais o autor nos apresenta sua realidade de periférico. Sua dificuldade de se vincular à escola. Sua condição de subemprego. As experiências com o uso de drogas. A parceria com os amigos. A convivência com a polícia. O racismo. A relação de classe. Entre tantos outros assuntos.

Os dois primeiros contos são incríveis. Em “Rolezín” nos deparamos com a narrativa em primeira pessoa (que eu inclusive prefiro aos outros contos em terceira pessoa do livro) onde uma linguagem dura, direta, cheia de gírias vai nos contando um dia comum na vida do autor, no qual ele e seu “bonde” querem chegar na praia e dar uma trégua no calor. Neste conto é possível observar a problematização das questões de classe e sociais, relatadas de forma vertiginosa. É difícil tomar um simples banho de mar na praia cartão postal da zona sul dos cariocas, quando se mora na favela.  

O segundo conto, “Espiral”, me pegou de uma forma que me deixou sem ar. De verdade, fui sentindo junto com o personagem sua percepção sobre sua condição de classe social ainda na adolescência. É muito impactante perceber junto com ele que apenas sua presença gera medo e desconfiança nas pessoas. E o final é muito simbólico da relação de poder nas questões de classe.

Outro aspecto marcante pra mim na narrativa é a estratificação social entre as favelas da Zona Sul e da Zona Norte. A primeira é favela, a segunda é morro. E o trânsito entre um e outro é bem complexo. Além disso, Geovani nos apresenta a dura realidade de sair da favela e dar de cara com a ostentação da classe média e alta da zona sul carioca.

É foda sair do beco, dividindo com canos e mais canos o espaço da escada, atravessar as valas abertas, encarar os olhares dos ratos, desviar a cabeça dos fios de energia elétrica, ver seus amigos de infância portando armas de guerra, pra depois de 15 minutos estar de frente para o condomínio, com plantas ornamentais enfeitando o caminho das grades, e então assistir adolescentes fazendo aulas particulares de tênis. É tudo muito próximo e distante. E quanto mais crescemos maiores se tornam os muros.

Confesso que depois do segundo conto (Espiral) achei que o livro deu voltas sobre um mesmo tema. E também acho que os contos perderam um pouco de sua força. Talvez seja porque os dois primeiros me impactaram fortemente. Li algumas críticas em que comparam o Geovani ao Rubem Fonseca e eu, sinceramente, não acho que seja pra tanto no momento. Penso que há um potencial enorme, mas que talvez ainda precise de tempo para amadurecer o estilo. 

Acho que O sol na cabeça é uma obra literária que merece ser lida por todas as pessoas, no Brasil e no mundo (como será a tradução de tantas gírias para os 8 países aos quais a obra já foi vendida?). Os direitos autorais do livro já foram vendidos e o cineasta Karim Ainouz será o diretor do filme.

Considero que o sucesso do livro se deve a toda a história de vida do seu autor, sua trajetória, sua realidade e sua forma de narrar esta realidade sem nos apresentar clichês já bastante saturados. É a realidade nua e crua, sem mimimi. É inquestionável o lugar de fala e a propriedade com que o Geovani narra suas histórias. É um livro muito bom sob este aspecto.

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Livro enviado pela editora.

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