Resenha – O Último Santo
por Ragner
em 11/04/17

Nota:

 

Em minha época escolar, nunca tive um bom contato com a Literatura Nacional e lia somente o que era obrigatório na escola ou mesmo para o vestibular. Anos passaram, comecei a acompanhar o Jô Soares, me interessei pelo André Vianco (fico adiando minha incursão pela literatura fantástica brazuca, mas ainda quero bastante) e quero mais do Raphael Montes. Hoje trago para vocês a estreia de Rafael Padilha no mundo literário. O que é bastante interessante, já que Rafael é médico e O Último Santo não é um romance que segue esse universo. O livro é um calhamaço que versa sobre um justiceiro que se posiciona em uma guerra “santa” para acabar com a bandidagem urbana. Falando secamente é isso, mas o enredo consegue transformar essa trama em algo maior do que parece.

Padilha vai esmiuçando (acredito nesse realismo do submundo do crime no Rio) o lado negro da vida na cidade maravilhosa e para isso utiliza um personagem que personifica a crença no santo guerreiro – São Jorge, matador de dragões -, que combate a criminalidade ganhando o louvor da população. O escritor passeia pelas ruas do Rio, retrata a malandragem do bandido carioca, exibe o despudor do jornalismo porta de cadeia, expõe a guerra que conduz a vida do policial que sobe o morro e ostenta o amor do cidadão que conhece bem a cidade onde vive.

Sou mineiro de nascença e completamente apaixonado pelos meus montes, mas fiquei até com uma certa curiosidade de conhecer o Rio (no livro a cidade passa por uma temporada de frio, mas sei muito bem o quanto lá é quente, e isso não me apetece nem um pouco).

Pelos morros e ruas do Rio, a criminalidade cresce e ganha terreno de maneira assustadora. Os donos do tráfico tomam o poder nas favelas e o asfalto não é seguro para qualquer pessoa andar sozinha. Essa é a realidade em toda grande cidade e aqui acompanhamos esse terror no Rio de Janeiro. Mas um homem começa a matar qualquer criminoso que aparece à sua frente. Não há descriminação para crimes maiores ou menores, não importa se alguém assalta um ônibus, estupra ou controla uma favela, o erro é combatido à bala certeira e ainda com traços de fantasia religiosa (seja ela cristã ou do candomblé). Jorge – ou Santo – é um rapaz que incorpora o santo guerreiro toda vez que combate o crime (sim, é como se ele vestisse “as roupas e as armas de Jorge”) e aniquila, sem deixar rastro, aquele que enfrenta, não importa a quantidade do inimigo, Santo é implacável. Depois de derrotar um grupo que tenta embosca-lo em um barraco no morro e matar alguns bandidos pela cidade, sua fama toma volume, respeito e assombro.

É quando a popularidade de Santo cresce, que o caos se instaura na cidade. O departamento de polícia quer caça-lo, o governo impõe sua autoridade para eliminar a questão sobre um homem fazendo justiça com as próprias mãos e a igreja se divide na crença do poder divino se configurando na imagem de um homem batalhando em nome de Deus ou um lunático se responsabilizando por um guerra santa. Santo combate a violência na cidade maravilhosa com mais violência ainda e vai criando uma aura de respeito e temor nas pessoas, que se altera de acordo com suas ações. E é nessa condição de certo ou errado, justiça ou punição, sensacionalismo e surrealidade, que acompanhamos uma narrativa cheia de violência, fé e corrupção que tem o Rio de Janeiro como cenário.

Rafael Padilha escreve muito bem, mas em alguns momentos é expressivo até demais. São acontecimentos e situações em que os detalhes poderiam estar menos presentes. O enredo é deveras interessante e a construção da narrativa que mistura religiosidade e violência se misturam bem. O Último Santo é um livro grande, mas o é assim pela condição extensiva de pormenores, não tão necessária. É, também, um livro pesado, com vocabulário que representa bem o cotidiano social e até cultural de todas as camadas sócio-econômicas presentes aqui. Esse primeiro livro do autor é um ótimo trabalho de iniciação literária. Espero ler mais.

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Livro enviado pelo autor.

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