Resenha – O vampiro de Curitiba
por Patricia
em 08/12/15

Nota:

Unknown12

Conhecia muito pouco sobre Dalton Trevisan antes de ler O vampiro de Curitiba. O que eu já sabia é que muitos consideram a obra essencial para a literatura brasileira. Lançado em 1965, o livro contém contos perturbadores com o protagonista Nelsinho (e vale avisar que na resenha trataremos de alguns temas pesados – principalmente estupro). Usando o nome no diminutivo até parece que Nelsinho poderia ser nosso amigo, o cara que todo mundo quer conhecer, que está sempre na roda do bar divertindo todos ao redor.

Ledo engano.

Nelsinho perdeu a virgindade aos 13 anos quando participou de um estupro coletivo de uma menina negra. A narrativa desse caso – no conto Debaixo da Ponte Preta – é intensa e pesada de se acompanhar porque Trevisan é conciso em sua escrita, escrevendo apenas o necessário, deixando quase nada para o leitor se apoiar. Ainda mais quando fica claro o descaso da lei e dos oficiais com a vítima. E, com isso, Nelsinho tomou gosto pela coisa e se tornou um estuprador e manipulador de primeira. Um vampiro de mulheres a quem não importa idade, situação social, cor, classe e etc.

Trevisan não dá nenhuma trégua ao leitor. O comportamento de Nelsinho é descrito sem remorso. Já que essa “cultura” segue embebida em sua vida desde muito cedo, Nelsinho em nenhum momento apresenta qualquer sentimento parecido com culpa depois de seus atos. Para o leitor, resta a sensação de desconforto que paira em cada página virada, quando já sabemos o que vamos encontrar. Cada vez que o nome do protagonista aparece, as entranhas já se reviram.

O autor Fabrício Carpinejar descreve bem o impacto da obra de Trevisan: “Dalton sempre vai ficar muito mais próximo das novas gerações do que das velhas. Ele não é um escritor da retaguarda. Ele não tem como ser cânone, não tem como ser beatificado” e complementa: “É difícil trabalhar os contos do Dalton Trevisan, por exemplo, na escola. É inconcebível imaginar uma coleção: ‘Contos Para Ler na Escola – Dalton Trevisan”. (1)

Nelsinho cria intrigas para separar casais, se aproveita de idosas sozinhas e isoladas (e carentes), meninas afastadas da família – um verdadeiro predador. Não há link de empatia possível entre o leitor e Nelsinho e Trevisan parece preferir assim. A Curitiba que nos é apresentada é fria, violenta e cruel com as mulheres – um retrato mais do que exato (ainda que tenebroso) do Brasil da época e, sejamos sinceros, se mantém atual até hoje (vale lembrar as recentes ações de grupos online com hashtags como #meuamigosecreto e #meuprimeiroassédio para demonstrar a facilidade com que conseguimos encontrar exemplos de Nelsinhos atuais).

Em 1965, com a Ditadura ainda bebê, o ufanismo era a regra e a base da campanha militar. Trevisan parece não levar isso em consideração ao nos mostrar um pedaço do Brasil que simplesmente não seria agradável de se conhecer. A realidade se impõe e o estilo conciso de Trevisan não abre margens para o leitor tentar encontrar mais do que está ali, às claras.

Para a mestre em Sociologia, Natalia Romanovski: “O personagem central é Nelsinho, sem que possamos afirmar que o Nelsinho de cada conto é o mesmo – um efeito procurado pelo autor: no primeiro conto, Nelsinho afirma que “No fundo de cada filho de família dorme um vampiro” (Trevisan, 2009: 10). O vampirismo definidor de Nelsinho, sua ética sexual, é coletivo. A misoginia, o desejo e a frustração sexual de sua psique são culturais e não individuais.” (2)

Nelsinho é, portanto, o macho brasileiro. Acostumado a ser obedecido e não questionado, toma o que quer, como quer e quando quer. Com armas, tirania e força se preciso. Costurando amor com estupro e romantizando ataques para redimir uma consciência  omissa. Um macho-vampiro que até hoje segue atuando na realidade brasileira. 50 anos depois de lançar uma de suas obras mais famosas, Trevisan segue mais atual do que nunca.

Na esperança de ressuscitar o amor perdido, pede para apanhar. ‘Judie de mim, meu amor’. Toda bicha gosta de ser castigada. Não tapinha leve, bofetão de cinco dedos. Deixe-a se lastimar que, cara inchada, não pode ganhar para você. Deixe estar, nunca se desculpe. Se ela perde o respeito, meu velho, está acabado como gostosão. (p. 70)

***

(1) Dalton Trevisan não tem como ser canône – Gazeta do Povo, 13/06/2015

(2) Dalton Trevisa, vampiro de Curitiba: um ícone literário da Província

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