Resenha – O velho está morrendo e o novo não pode nascer
por Bruno Lisboa
em 22/04/20

Nota:

Antônio Gramsci foi um dos mais notórios teóricos e ativistas políticos de seu tempo. Nascido na Itália no século XIX, Gramsci adotava o marxismo como linha de pensamento e era integrante do Partido Comunista. Seu discurso afrontoso à ditaduras e a defesa da liberdade acabaram por resultar em sua prisão, na era do ditador Bento Mussolini em 1926.

É desta época uma de suas frases mais notórias e atemporais onde disse que “a crise consiste precisamente no fato de que o velho está morrendo e o novo ainda não pode nascer. Nesse interregno, uma grande variedade de sintomas mórbidos aparecem.” Em síntese o que autor almejou dizer aqui era que o mundo naquela época carecia de mudanças estruturais em vários sentidos, pois velhos paradigmas estavam por ruir (como a crise de 1929 provou), porém novas fórmulas, para guiar novos tempos, ainda não existiam.

Quase um século mais tarde a célebre frase de Gramsci acabou por se tornar, novamente, válida e é a partir desta ótica que a ativista, filosofa e professora universitária Nancy Fraser escreveu o artigo “O velho está morrendo e o novo não pode nascer” que deu origem a este curto, mas importantíssimo livro.

Nesta nova obra Fraser problematiza a nova ordem política mundial ao criticar, de forma veemente e pontual, o viés neoliberal, que está quase onipresente em escala mundial, e tem deixado sequelas que afetam diretamente as minorias, que de fato correspondem, segundo a autora, cerca de 99% da população global.

Para aprofundar a sua análise Fraser traz no artigo um painel histórico da política norte-americana, partindo das eras essencialmente neoliberais dos republicanos Nixon/Reagan até chegar a contemporaneidade.

Segundo a autora, foi durante a década de 90 (na era do democrata Clinton) que ocorreu o momento de grande transição política, que culminaria no malfadado formato que se vê hoje. Até ali, se inicialmente os modelos políticos/econômicos eram mais “puros” (e naturalmente excludentes) ideologicamente falando, a partir dali as minorias começariam a terem as suas vozes ouvidas. Porém, apesar desta abertura democrática, na prática pouco se fez para reduzir a desigualdade.

E o que se vê hoje na política, segundo a autora, são figuras que se vendem como governantes populistas (seja como Trump ou Bolsonaro, por exemplo) que pretendem atender os interesses da nação, mas adotam que na prática adotam linhas reacionárias, de regime de extrema-direita, que excluem grande parte de seu eleitorado, colocando no front de sua práxis uma valorização do deus mercado que acabam por criar uma distância cada vez maior entre os mais ricos e os mais pobres. Como se não bastasse, instituições que lutam pela igualdade são cada vez mais enfranquecidas pelos mesmos.

Apesar deste cenário caótico que vemos hoje, Fraser vê uma luz no fim do túnel. Inspirada em movimentos de esquerda e anarquistas que tem se organizado aqui e acolá, tão bem registrado no livro Da democracia à liberdade, acabam por mostrar as fragilidades de modelos econômicos arcaicos que caminham para um possível fim do capitalismo tradicional. Isto somadas as mudanças de mentalidade da sociedade, principalmente no que tange a luta de classes e ao machismo, fazem com que as chamas da esperança de novos tempos se acendam. Porém, para que isso ocorra é necessário a criação de um novo modelo de ver o mundo, que evidencie uma melhor distribuição de renda e na redução da desigualdade social. E o mesmo ainda não existe de forma concreta.

Em caráter complementar, a obra ainda contém um belo prefácio do professor Victor Marques e uma entrevista concedida por Nancy a Bhaskar Sunkara, editor da revista com viés esquerdista Jacobin, onde a autora externa ainda mais que temos uma grande chance nas mãos de levar a frente uma nova era progressista à nível mundial. “Basta” (como muitas aspas e ponderações aqui) que a população leia os sinais, que a cada dia tornam se mais claros, e que a esquerda se organize para este fim. Em que momento isto se dará (e se de fato ocorrerá) é difícil precisar, mas que a mudança deve ser urgente não há dúvida.

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