Resenha – O verão tardio
por Ragner
em 30/10/19

Nota:

O autor Luiz Ruffato já passou pelo Poderoso com De mim já nem se lembra e agora temos em mãos seu mais novo livro. O verão tardio foi lançado esse ano e é meu primeiro contato com o autor. De cara já digo que sua escrita é deveras diferente das de outros escritores que já li. Me fez lembrar um pouco de José Saramago. Sem parágrafos e com diálogos sem marcação. Mesmo não sendo acostumado com tal escrita, confesso que a leitura fluiu e o enredo conquistou.

Luiz Ruffato é um autor já aclamado, vencedor de prêmios nacionais (troféu APCA e o prêmio Machado de Assis). Sinceramente não sei, ainda, se os demais livros seguem esse mesmo estilo de escrita, está em minhas pretensões conhecer mais. Em pesquisa sobre o escritor, críticos literários o elogiam e o celebram dentro do cenário contemporâneo. Ruffato é considerado um expoente da narrativa que mescla cenários políticos e sociais, com um olhar bem focado da realidade da classe média.

Oséias é o protagonista e o narrador, um homem que retorna à sua cidade natal (Cataguases) à procura de algo que parece não ser explícito nem para ele mesmo. Durante poucos dias – 6 – ele perambula pela cidade, visitando familiares e encontrando velhos conhecidos. Há 20 anos ele não tinha contato com ninguém dali e nos dias em que reencontra seu passado, Oséias vagueia por sentimentos de tristeza e abatimento.

Quando chega à cidade vai para casa de uma irmã – Rosana -, que nitidamente não faz tanta questão de sua presença e é sua filha Tamires quem passa a ter maior contato com ele. Oséias tem outros dois irmãos Isabela e João Lúcio. Rosana vive em uma condição social estável, Isabela passa por dificuldades financeiras e João também está bem de vida. Mas há um perceptível distanciamento entre os irmãos. Nem a lembrança de outra irmã – Lígia – que se suicidou ainda adolescente garante uma ligação maior entre eles.

Nos dias em que revisita Cataguases, Oséias encontra uma cidade que sintetiza sua vida familiar (com os irmãos distantes e que dialoga muito pouco). Cada cidadão cuidando somente de seus interesses, fechados em seus ciclos e meio social. E aqui caracteriza bem o que disse nos parágrafos iniciais, pois a leitura me chamou a atenção pela narrativa que me lembra nosso presente como sociedade, em bolhas e pouco entendimento.

O verão tardio é um livro que vale muito a pena ser lido pelo contexto atual.

****

livro enviado pela editora

Postado em: Resenhas
Tags: , ,

2 Comentários em “Resenha – O verão tardio”


Avatar
Felipe Levi gurgel em 03.11.2019 às 19:35 Responder

A história é o relato de Oséias que volta a sua cidade natal, depois de 20 anos. Ruffato redigiu mais a poderosa metáfora do Brasil atual. Sua cidade continua empacada em vários setores de atividade. O nepotismo na prefeitura. O Brasil continua engasgado em seu passado.

Avatar
Ragner em 04.11.2019 às 10:48 Responder

Concordo, caríssimo!
Engasgado é pouco diria eu.


 

Comentar