Resenha – O violão azul
por Patricia
em 29/05/17

Nota:

 

O violão azul é o mais recente lançamento do irlandês John Banville – autor de O mar – que ganhou o Man Booker em 2005. O autor também escreve roteiros para o cinema e já apareceu na lista para o Nobel – que muitos críticos dizem ser inevitável em algum momento de sua carreira.

Em O violão azul, Banville nos apresenta a Oliver Otway Orme, um pintor que tem um, digamos, hobby inusitado: ele gosta de roubar. Ele é um pintor reconhecido e um ladrão de sucesso que, obviamente, nunca foi pego. Ele rouba pequenas coisas: pequenas estátuas da casa de amigos, um livro aqui, outra coisinha acolá – apenas o suficiente para alimentar sua necessidade de perigo e a hesitação que sente quando sabe que detém algo de outra pessoa. Ou seja, a história é toda narrada por este anti-herói.

Ao ter um caso com a esposa de seu amigo – ou, roubá-la – Oliver abre ao leitor um lado diferente seu – mais pessoal, mais sincero. O resultado desta traição é previsível – a vida dos quatro – Oliver, sua esposa e o casal de amigos – sai totalmente do eixo. Quando isso acontece, o próprio Oliver não consegue escapar de suas crises de consciência e atravessamos junto com ele o caminho árduo da penitência até a realização de que seu caso não foi o único fator a contribuir para que a vida mudasse como mudou – apesar de ter sido o provável estopim.

A escrita de Banville é bem trabalhada. De fato, pode ser única coisa realmente interessante no livro. A história previsível, o final quase novelesco (de novela das 8 mesmo) fez com que, para mim, a leitura se arrastasse mais do que deveria. Há humor no livro e é bem feito, mas não o suficiente para deixar a leitura mais leve ou mais interessante. É uma história que já vimos antes em vários formatos. O autor consegue inserir momentos de inspiração com bons diálogos e agregando à história algo que nos estimule a continuar lendo, e este é o testamento de seu talento porque a história em si não inspira a leitura. Lemos porque a prosa de Banville nos estimula a ler, mas em nenhum momento a história que temos à nossa frente se prova ser mais do que se espera.

E antes que você pense que é difícil se conectar com um anti-herói, posso apenas dizer que há bons exemplos de autores que conseguem fazer isso: Patricia  Highsmith com O talentoso Ripley é o que mais me vem a mente. Lemos toda a obra odiando Ripley fervorosamente mas sem conseguir largar o livro (e, note, Ripley é um criminoso bem pior que Oliver Orme). E se estamos falando de narradores não confiáveis, o próprio Sr. Brás Cubas é um clássico exemplo que também não nos deixa abandonar o livro apesar de termos sempre aquela leve suspeita de que algo pode não ser bem o que diz.

Portanto, O violão azul é um reforço do talento de Banville para criar uma prosa acima de qualquer enredo e, por isso, me interesso em ler mais do autor. Fora isso, não consigo imaginar algo mais de muito memorável nesta obra.

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O livro foi enviado pela editora. 

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