Resenha – Olga Benario Preste – uma comunista nos arquivos da Gestapo
por Juliana Costa Cunha
em 07/10/19

Nota:

Olga Benario nasceu em Munique em 1908. De origem judaica, tornou-se militante do partido comunista aos 15 anos. Foi casada com Otto Braum, com quem mudou-se para Berlim, participando ativamente de conflitos de rua contra a extrema direita da época. Nestes conflitos passou por seu primeiro período na prisão. Na União Soviética, para onde fugiu após resgatar seu marido Braum da prisão de Moabit, preso na mesma época que ela, teve então seu treinamento político-militar.

Em 1934, por determinação da Internacional Comunista, Olga foi enviada ao Brasil, para apoiar Luis Carlos Prestes na revolução armada do nosso país. Era o período do governo Vargas no Brasil e toda intenção da revolução comunista por essas bandas foi reprimida por este governo. Para além disso, Olga e Prestes foram presos.

É sabido por todas as pessoas que tenham o mínimo de conhecimento na história do Brasil que, quando foram presos, Olga e Prestes mantinham uma relação amorosa e consideravam-se casados. Com a prisão de ambos e, sendo os dois considerados de alta periculosidade pelo governo Vargas, tem início um processo de extradição de Olga para a União Soviética, como forma de pressionar o casal a dar informações sobre as ações do Partido Comunista, em Moscou e no Brasil. Barganha esta que jamais funcionou. Olga, em momento algum, revelou qualquer informação.

“Se outros se tornaram traidores, eu jamais o serei”.

Olga Benario Prestes

Anita Leocadia Prestes é a filha de Olga e Prestes, nascida quando sua mãe estava na prisão. Quando Olga foi presa não tinha conhecimento de sua condição de gestante. Após o nascimento, Anita permaneceu com a mãe por exatos 10 meses na prisão, sendo posteriormente entregue a seus avós paternos para cuidados. Nas cartas contidas no livro temos acesso a todos o processo de negociação para que esta transação fosse possível.

O livro Olga Benario Preste – uma comunista nos arquivos da Gestapo traz à luz arquivos finalmente liberados pelo governo russo, para conhecimento público, a partir de 2015. Então, Anita, historiadora de formação, solicitou e passou a ter acesso aos documentos do período de prisão de sua mãe Olga até que a mesma fosse assassinada na câmara de gás em Bernburg, em abril de 1942.

Para surpresa de Anita os arquivos com os documentos de Olga constavam de mais de 2 mil páginas, denominado de “Processo Olga”, nas quais ela era citada como “comunista perigosa”. Nas páginas do livro escrito por Anita, temos o relato da tramitação do acesso a estes documentos. Bem como uma biografia da vida de Olga, até sua morte do campo de concentração. Há também cartas destinadas a Prestes e seus familiares escritas por Olga, bem como destes para ela.

Estas cartas relatam passagens tensas do período de prisão desta mulher incrível que foi Olga Benario. Relatam seus momentos de tristeza e solidão. Sua preocupação com o destino de sua filha Anita. Os rigorosos invernos que tinha de enfrentar. A felicidade pelos tempos de verão. E sua paixão por Preste e dele para ela.

O livro é um importante relato sobre este período da história mundial e da força desta mulher chamada Olga. Porém a narrativa dele feita em terceira pessoa pela autora, sendo ela filha da personagem principal do relato, me causou muito estranhamento. É de um distanciamento tão grande que tornou a leitura fria para mim.

Após participar do Leia Mulheres Olinda em julho, que teve este livro como foco da discussão, saí com muitos possíveis motivos para isto. Por exemplo: ser Anita historiadora e ter esse caráter do relato dos fatos. Toda a vida da própria Anita perpassada por esta história e a possível dificuldade em lidar com ela. Uma vida dedicada a estudar a história de seus pais, sendo sempre colocados como grandes heróis…

Há que se considerar tudo isso. Porém, não tirou de mim essa sensação da frieza e da distância no relato. No único trecho em que Anita se implica na escrita, ela diz: “Meu pai e eu sempre entendemos que Olga fora uma entre milhares de outras vítimas do fascismo e que seu martírio deveria servir de exemplo para que não se permita que tais horrores venham a se repetir”.

Este é um livro necessário nesses tempos sinistros que estamos vivendo. Não só no Brasil, mas no mundo. As minhas três xícaras de café são exclusivamente pelo tom distanciado da narrativa. Jamais por seu conteúdo.

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