Resenha – Os diários de Sylvia Plath (1950 – 1962)
por Patricia
em 16/04/18

Nota:

 

Sylvia Plath é uma autora que ficou, talvez, mais marcada pela sua breve vida do que por sua obra literária. Muitas pessoas conhecem a parte mais trágica de sua biografia antes mesmo de abrir um livro sobre ou da autora. Em “A mulher calada”, já resenhado aqui no Poderoso, Janet Malcolm, debate a narrativa criada pela família de Plath e em grande parte pelo seu marido Ted Hughes, de que ela era uma mulher difícil, rude e depressiva.

Minha experiência anterior com Plath foi ler SOBRE a autora antes de saber DELA. Com o lançamento de “Os diários de Sylvia Plath” pela Biblioteca Azul no final de 2017, decidi corrigir isso e conhecer Plath por ela mesma. Essa edição, aliás, traz trechos que foram censurados por Hughes em edições passadas – apesar de ainda termos lacunas, de acordo com a organizadora.

Os diários 

O que vemos nos primeiros anos é uma jovem Sylvia Plath que sofre com as mesmas coisas de toda jovem mulher: pensar numa carreira quando não se sabe o que vai acontecer, pensar em casamento e na pressão social para encontrar um homem e no tanto de atividade que tinha que cumprir na faculdade. O que Plath tem que não é comum a jovens de 19 anos é uma sensibilidade altíssima aos próprios “defeitos”: a facilidade com que ela via e se rebelava contra esses padrões já mostra uma mente aguda e bem ciente de seus entornos.

Os temas giram em torno da solidão de buscar companhia intelectual, a constante dúvida de si mesma, o questionamento da religião, a discussão sobre carreira X casamento e se seria possível conciliar ambos com sua ambição de crescer na carreira até coisas simples como uma jovem que está experimentando a independência de trabalhar e gasta seu próprio dinheiro.

Plath tentou o suicídio pela primeira vez em 1953 tomando uma overdose de soníferos.

A era Ted Hughes 

Em 1956, Plath conhece Ted Hughes. O primeiro encontro deles, uma amostra do que estaria por vir, foi cheio de uma paixão violenta. Ele arranca o lenço que ela usava nos cabelos e ela o morde na bochecha até arrancar sangue. Eles se casam em Junho do mesmo ano.  Nos anos seguintes, Plath verá Hughes ascender profissionalmente tornando-se um poeta de certa reputação e professor de uma Universidade renomada. Enquanto ela diz várias vezes que está feliz por ele, ela também se empenha o dobro para tentar alavancar sua própria carreira.

Ela também virou professora e se lamentava da falta de tempo para se dedicar a seus poemas e a desenvolver sua prosa. As passagens em que Plath fala sobre seu relacionamento com Hughes mostram a força com que ela depositava nele seus desejos de uma vida normal e feliz:

Dou graças a Deus por um marido capaz de aturar uma esposa doente e fraca e cuidar dela na saúde e na doença, na alegria e na tristeza muito, muito grande. Ele é minha vida agora, meu muso, a estrela-guia que me mantém centrada e no rumo certo. (pág. 422)

Em outro momento:

…sou supersticiosa a respeito de me afastar de Ted, mesmo por uma hora. Acredito viver do calor e da presença dele, de seus odores e palavras – como se todos os meus sentidos involuntariamente se alimentassem dele e, privados de alimento por algumas horas, me levassem a enfraquecer, definhar, morrer para o mundo. (pág. 438)

É perigoso estar tão perto de Ted, dia após dia. Não tenho vida distinta da dele, corro o risco de me tornar um mero acessório. (pág. 604)

Esse tipo de adoração, colocando Hughes e o relacionamento deles em um pedestal tão alto, nos dá uma possível visão do que a poetisa sentiu quando descobriu as infidelidades do marido. O mundo que ela conhecia e achava que girava em torno de um relacionamento perfeito, explodiu levado-a penhasco abaixo.

Depositei minha fé em Ted, e por que a mulher é a última a ver a úlcera do marido? […] Quem sabe a quem o próximo livro de Ted será dedicado? A seu umbigo. Seu pênis. Pela primeira vez o percebi presunçoso, enganador. E eis aqui, após tantos anos, o momento decisivo. (pág. 449)

Mais à frente, na mesma entrada do diário, ela diz que fará o possível por um ano até poder ter mais economias. Sem dinheiro, ela não tem para onde ir mesmo se quisesse se separar dele naquele momento. Depois de um mês de silêncio (ou de censura), vem uma entrada que mostra o estado do casamento:

Estou com o polegar deslocado, Ted com cicatrizes das unhadas, faz uma semana, e me lembro de ter jogado um copo com toda força na sala escura; em vez de quebrar, o copo bateu, ricocheteou e permaneceu intacto: fui atingida, vi estrelas – pela primeira vez – estrelas vermelhas e brancas explodindo no vácuo negro dos gritos e das mordidas. (pág. 455)

Família

Quando Sylvia começou a fazer terapia – depois de aceitar sua depressão – ela passou a escrever sobre algumas coisas discutidas nas sessões. No final de 1958, Sylvia finalmente manifesta em seus diários (nos quais temos acesso, é bom reforçar) sobre o difícil relacionamento que tem com sua mãe e o efeito que isso teve em sua vida:

Então, como manifestar o ódio pela minha mãe? Nas emoções mais profundas penso nela como um inimigo: alguém que ‘matou’ meu pai, meu primeiro aliado masculino no mundo. Ela é uma assassina da masculinidade. Deito-me na cama quando penso que minha mente ficará vazia para sempre e penso no regozijo que seria matá-la, estrangular sua garganta magra cheia de veias que nunca pôde ser grande o bastante para me proteger do mundo. Mas eu era boa demais para matar. Tentei me matar: para deixar de ser um constrangimento para as pessoas que amo para me livrar do inferno do vácuo mental. Eu seria capaz de matá-la, por isso me matei. (pág. 501)

Esse tema surgirá diversas vezes a partir daqui e Sylvia deixará muito claro o que sente e pensa de sua progenitora. São trechos tristes e carregados de sentimento.

Da leitura

O livro tem mais de 800 páginas, cobrindo aquele momento chave na vida de uma mulher: quando ela se enxerga como mulher na sociedade (vemos Sylvia dos 18 anos aos 30 anos). O livro não cobre os anos finais do casamento com Hughes ou o nascimento de Frieda, primeira filha do casal – muito provavelmente pelos diários terem sido censurados pela família. A partir de 1959, tudo o que temos são fragmentos dos diários – que foram colocados na parte de apêndices (mais de 150 páginas no livro).

Nem sempre a leitura é fácil. Às vezes pelo nível de ansiedade e angústia da autora, às vezes pelos longos parágrafos em que ela destila seu descontentamento com a carreira – algo que parecia ser uma constante nesse anos. Plath alterna momentos de profunda dúvida de si mesma com uma auto-confiança intensa, ao ponto de se comparar com autoras publicadas e acreditar que pode ser melhor. A disciplina de Plath para tomar notas e analisar a vida para usar em sua obra mostra que havia muito conteúdo ali com boas promessas.

O que podemos tirar das páginas da obra é que Plath foi uma mulher com desejos e ambições acima da média e vontade de trabalhar para obter seu reconhecimento. Sua voz ainda ecoa porque a sinceridade que despeja nas páginas é marcante e choca. Ouvir uma mulher assumir que prioriza a carreira antes de filhos; que não abandona o marido porque precisa guardar dinheiro antes; que sabe que sofre de depressão e precisa lidar com seus demônios; escancarar a alma mostrando seu lado feio; nos diz que ela estava muito à frente de seu tempo nessas questões falando de temas que a sociedade evitava no dia a dia – principalmente as mulheres.

Vale lembrar que o espólio da autora ficou sob o poder de Hughes até sua morte em 98. Ele editou muito dos escritos de Plath e, acredita-se, destruiu escritos que poderiam colocá-lo sob uma luz….pouco favorável. Inclusive um dos diários com escritos até 3 dias antes do suicídio de Plath foram destruídos por Hughes.

Em 1953, ano em que ela tentou o suicídio pela primeira vez, temos apenas trechos de um diário. Em uma das entradas, Plath escreveu:

[…]tudo na vida é material para escrita, se a gente tiver coragem para usar e imaginação para improvisar. O pior inimigo da criatividade é a insegurança, a dúvida interna.

No fim, a busca por uma voz própria parece ter sido o que mais a sufocou.

***

O livro foi enviado pela editora. 

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