Resenha – Os meninos de Nápoles – Conquistando a cidade
por Patricia
em 08/07/19

Nota:

Nos meus momentos de “obsessão” por um tema, eu podia passar meses lendo e assistindo filmes sobre um mesmo assunto. Guerra, feminismo, historia de alguns músicos…a lista é tão longa quanto eclética. Máfia foi um dos temas por um tempo. Nosso querido blog, como muitos já devem ter notado, foi inspirado pela saga mais famosa da máfia: O Poderoso Chefão.

Portanto foi com curiosidade que peguei “Os meninos de Nápoles – Conquistando a cidade” para ler. Este é o primeiro volume do que será uma série que conta a ascensão de uma nova “família” ou, como dito em Nápoles, uma nova “paranza”.

A escolha de Nápoles é interessante. Além de ser a cidade natal do autor, ali temos a Camorra, a máfia principal da cidade aliada à sua prima mais famosa, a máfia da Sicília. Em 2014, a revista Fortune estimava que a Camorra fosse um dos maiores grupos mafiosos do mundo com uma renda em torno de 5 bilhões de dólares por ano. Foi também a Camorra que lançou Saviano ao “estrelato” (se podemos chamar assim): em sua obra de estréia “Gomorra”, ele desmantelou todo o estado paralelo criado pela máfia napolitana e causou uma comoção no país. A máfia o declarou morto e desde 2006, ano de lançamento do livro, ele vive sob proteção policial. O livro foi traduzido para 52 países.

Apesar de ter dito em entrevistas que às vezes se arrepende de ter publicado o livro, em “Os meninos de Nápoles” ele retorna ao tema e à sua cidade. Acompanhamos Nicolas Fiorillo – chamado de Marajá, um jovem de 16 anos ávido por ser alguém importante e seus amigos. Com a queda dos principais chefões, Nicolas decide que esse é o momento de assumir o comando do bairro Forcella.

Ser o “dono do bairro” aqui envolve muito mais do que apenas roubar o coelhinho da Mônica: Nicolas precisará de armas, infligir medo, doutrinar o comércio e, o mais importante, assumir os pontos de vendas de drogas.

A história em si não tem nada de novo. Não precisamos nem mesmo ir à Itália para saber como gangues ou – quadrilhas, como chamamos cá – são formadas. Porém, o que Saviano faz muito bem é contextualizar a história nos dias atuais. Quando não sabem como usar uma metralhadora, os jovens abrem tutoriais no Youtube. Para marcar seus encontros, usam o WhatsApp. Para mostrar suas conquistas e as drogas que usam, postam vídeos no Snapchat. Para passar o tempo, jogam Playstation. Quando um atentado acontece na Europa, eles comentam sobre no Facebook. Para saber como agir com seus agora subordinados, Nicolas assiste incessantemente o filme italiano “O professor do crime” de 1986 (que também se passa em Nápoles).

Alguns outros fenômenos culturais são citados como Breaking Bad e Call of Duty. A cultura pop americana já está imbuída em como esses jovens vivem e molda como eles veem o mundo. Eles não são jovens isolados em um morro, eles são parte ativa da sociedade digital. A violência se torna um meio para a conquista do que eles querem de verdade: poder e respeito.

Ao situar esses jovens nos dias de hoje, nota-se que eles podem ser qualquer um. O mais assustador é que provavelmente nós conhecemos um ou dois jovens que são tão influenciados negativamente pela cultura da violência quanto Nicolas.

O ritmo do livro é rápido: você não sente as mais de 400 páginas quando lê. Isso porque Nicolas sabe que precisa agir rápido antes que um novo Rei apareça em sua corte e acompanhamos sua mente frenética em ação. O uso do dialeto napolitano deixa a história mais interessante – ainda que às vezes incômoda de ler.

Mais incômodo ainda é ver o quão fácil esses jovens se transformam em assassinos frios. Quando pegam as armas pela primeira vez, eles vão “treinar” atirando nos “negros que estão no ponto de ônibus às 5 da manhã para ir trabalhar.” Quando precisam dar conta de um mafioso que retorna à cidade, chamam um membro de 10 anos para dar cabo do assassinato. Não há um limite claro de violência e o final da obra nos mostra que há um preço alto a se pagar já que quando se alimenta um ambiente violento, também se acaba sendo afetado por ele.

Bom começo para a série e já deixa boas perspectivas para o que vem por aí.

***

O livro foi enviado pela editora.

Postado em: Resenhas
Tags: , ,

Nenhum comentário em “Resenha – Os meninos de Nápoles – Conquistando a cidade”


 

Comentar