Resenha – Os pescadores
por Patricia
em 29/02/16

Nota:

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Acompanhei os indicados ao Man Booker de 2015 com grande interesse. Primeiro porque gosto de prêmios literários e segundo porque eles sempre nos indicam obras que têm grandes chances de despontar em terras tupiniquins em breve. Esse é o caso de The Fishermen do nigeriano Chigozie Obioma. que estava entre os finalistas do prêmio e será lançado no Brasil pela Globo Livros em Março com o título “Os Pescadores”.

A história se passa em Akure, um vilarejo na Nigéria, onde o próprio autor nasceu. Ikenna, Boja, Obembe e Benjamin são quatro irmãos que vivem juntos, filhos de um pai tão difícil quanto ausente e que exige que seus filhos sejam médicos, advogados e essas profissões identificadas com sucesso. Os irmãos são estudiosos e seguem as regras. Até que decidem ir pescar no rio Omi-Ala – considerado um rio amaldiçoado pelos habitantes locais.

Em uma dessas visitas ao rio, os irmãos encontram o louco da cidade, Abulu, a quem muitos reconhecem como um profeta. Ele é louco sim e há histórias suficientes para provar isso rondando a cidade, mas o temor de ele talvez ter alguma razão faz com que a maioria das pessoas o deixe em paz mesmo quando ele já demonstrou ser perigoso em outras situações. Abulu profetiza que Ikenna, o mais velho, será assassinado por um de seus irmãos.

Enquanto a maioria das pessoas poderia descartar essa profecia como “coisas de um homem louco”, ela começa a corroer Ikenna transformando desdém em medo e, finalmente, medo em raiva. Uma simples frase, dita quase ao vento, muda tudo o que Ikenna poderia ter sido.

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É Benjamin, agora um adulto, que narra a história que aconteceu quando ele tinha apenas 9 anos. A ingenuidade do narrador em alguns momentos dá ainda mais força para história quando o leitor entende o que o menino só entenderá anos depois. Uma escolha certeira do autor.

O livro pode ser visto de diversas maneiras. Abulu é uma metáfora muito boa para religião. Ronda por aí como uma força destruidora que ninguém tem coragem de impedir por medo, desconforto ou preguiça. Não se sabe se ele é um profeta porque fala a verdade ou se suas histórias se tornam realidade porque alguns acreditam nela e a criam (como acontece com Ikenna). Assim, seu discurso envenena e condena sem que ele precise tomar qualquer atitude por conta própria. O medo, como sempre, é uma força impressionante.

Ainda no contexto bíblico, a quase guerra que se institui entre os irmãos é uma versão nigeriana de Caim e Abel. O leitor testemunha a força do mito na vida desses irmãos que terá consequências trágicas e definitivas arrastando toda a família para uma triste realidade. A história seria uma parábola se houvesse uma lição ao final, mas o autor não nos entrega um resultado tão simples assim.

Os pescadores também é a história de uma Nigéria que poderia ter sido muito mais se não tivesse caído no conto do Ocidente ao tentar se adaptar ao que desconhecia ou tentado se livrar de suas próprias verdades para aceitar verdades alheias. Como os quatro irmãos, havia uma promessa clara que não se concretizou plenamente e tribos destruíram-se entre si para evitar um destino que, no fim, não pôde ser alterado e deixou sequelas profundas.

E, no fim, é ainda a história de uma família como outra qualquer que se torna vítima de uma tragédia que a divide.

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As críticas têm sido em sua grande maioria positivas com poucas vozes dissidentes que questionam o fator “geopolítico” da escolha de Obioma para o Man Booker – a idéia de que sua indicação tenha sido mais pelo fato de ser africano do que por ter escrito uma obra de qualidade. Pode ser que sim – nunca se pode duvidar da capacidade do Ocidente de vestir a camisa do “não fui eu” quando se trata da África (bem como do Oriente Médio). Ainda assim, Obioma e sua escrita elegante fazem total jus à indicação com uma obra que possui todos os elementos para garantir uma experiência incrível: personagens bem construídos, enredo forte, um misto de sobrenatural com uma história extremamente humana e uma escrita que exige atenção e envolvimento do leitor.

Uma estréia estrondosa.

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O livro foi enviado pela Editora.

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1 Comentário em “Resenha – Os pescadores”


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Araken Vaz Galvao em 23.04.2019 às 12:09 Responder

Acabo de comprar Os pescadores, mas quando vejo que fulano é o García Márquez brasileiro, por exemplo, ponho-me de guarda. Não se elogia comparando, penso assim. Porém, ainda não li o livro, por isso voltarei a comentar algo.


 

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