Resenha – Outros jeitos de usar a boca
por Patricia
em 07/08/17

Nota:

 

Rupi Kaur é uma poetisa de seu tempo: o leitor pode segui-la no Instagram para acompanhar seus posts sobre o processo de escrita, sua agenda e mais. Seu feed é belíssimo com fotos de sua rotina alternadas com fotos de seus poemas. Com 1 milhão e meio de seguidores e mais de um milhão de cópias vendidas de seu primeiro livro só nos Estados Unidos, ela se tornou um fenômeno da poesia com apenas 24 anos.

Kaur, inclusive, credita às mídias sociais seu sucesso. “Meu livro nunca teria sido publicado sem as mídias sociais. Eu não estava tentando escrever um livro, isso nem estava nas minhas idéias. Eu postava algumas coisas só porque fazia com que eu me sentisse melhor – uma maneira de tirar as coisas da cabeça.” Disse ela em uma entrevista ao The Guardian.

Ler “Outros jeitos de usar a boca” – uma tradução estranha do título original Milk and honey (Leite e mel, em tradução literal) – explica bem porque ela ganhou a fama que tem. Kaur trata de temas pouco atraentes para aqueles que esperam poesias de amor. Em seu livro de estréia, ela guia o leitor por uma jornada refletida nos títulos dos capítulos: dor, amor, ruptura, cura. O formato de suas poesias: sem rima, sem estrutura específica, basicamente escrita como quer, é simples e sem pretensões.

E isso é importante por vários motivos: primeiro porque faz com que sua poesia seja interpretada exatamente como ela pretende, a simplicidade de seus escritos abre pouca margem para milhões de interpretações e vai direto ao ponto. Segundo porque em um mundo tão poluído de informação e conteúdo, ler algo tão simples, sincero e objetivo é um bálsamo de calma em um mundo tão ocupado ainda que os temas sejam tão profundos.

você pregava

minhas pernas

no chão

aos chutes

para depois pedir

que eu parasse em pé (pág. 25)

A maioria dos poemas não tem título. Se lidos um atrás do outro, podem ser uma conversa sincera entre amigas. No contexto de cada capítulo, trazem visões diferentes de cada pedaço que faz uma pessoa (e aí acho que tanto homens quanto mulheres podem encontrar eco nesses poemas).

No texto Saiba o que acontece em seu cérebro quando você lê poesia, a psicóloga Jennifer Delgado Suárez começa explicando que “poesia são dardos em forma de palavras que vão direto para a parte mais emocional do nosso cérebro. Há poemas que despertam um tsunami emotivo real e nos arrepiam” e ainda, “a poesia tem a capacidade de enviar poderosas mensagens emocionais e ativar a reflexão, ainda que seja certo dizer que o maior prazer que sentimos ao ler um poema, como quando desfrutamos de uma obra de arte, não provém de uma reflexão profunda, mas de sensações que nós experimentamos.”  É uma maneira excelente de explicar o impacto da poesia de autoras como Rupi Kaur.

nossas costas

contam histórias

que a lombada

de nenhum livro

pode carregar 

-mulheres de cor

Os poemas são curtos e a leitura flui bem. Li os livro duas vezes em dois dias. Li a primeira vez, terminei e imediatamente abri e li tudo de novo. Às vezes um poema exige que você o leia mais de uma vez, nem que seja para sentir de novo a sensação que veio na primeira leitura.

Rupi Kaur é uma poetisa de seu tempo, mas além das mídias sociais, ela também incorpora temas das lutas femininas de maneira clara e sensível e enquanto tenta traduzir a dor em poesia, também tenta empoderar as mulheres. Não é a toa que seu sucesso com leitoras tem sido considerável. Não é fácil traduzir os desafios de ser mulher e fazê-lo de maneira tão bela e sincera, ainda que às vezes um pouco repetitivo, é uma arma poderosa que a poetisa usa muito bem.

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