Resenha – Para Poder Viver
por Ragner
em 29/06/16

Nota:

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Leio normalmente poucas biografias ou autobiografias. Quase nada. Acredito que seja um vacilo meu ou mesmo um erro que preciso consertar. Existe muito material fantástico percorrendo o mundo literário e ótimas coisas escritas já até apareceram aqui no Poderoso. Me interessei por “Para Poder Viver” por alguns motivos simples: ler mais sobre o gênero; conhecer mais sobre a Coreia do Norte e entender mais sobre a vida de pessoas que sofrem, lutam e vencem obstáculos que poucos conseguiriam. Yeonmi Park é uma sobrevivente e seres como ela conquistam minha atenção de uma maneira absurda. Me emociono fácil quando leio sobre pessoas assim e minha escolha por esse livro me pareceu óbvia.

Li calmamente, aos poucos, de poucas em poucas páginas e a cada uma acompanhei os fatos fazendo um paralelo em relação à minha vida e observando tanto as diferenças culturais quanto sociais. Me lembrei até de partes que li no Caçador De Pipas (brincadeiras infantis, deserto, frio e opressão politica). Os dois livros possuem uma certa inocência juvenil e conflito social em comum. Junto ao fato de serem bem tristes e também de contarem histórias de fuga e liberdade. Park vai relatando sobre sua vida, desde quando era criança e morava na periferia de Hyesan, brincando às margens do rio Yalu (que separa a Coréia do Norte e a China) e contemplando as luzes de Chaingbai (na China), passando pela adolescência quando sua família decide escapar de uma das mais (se não a pior) opressoras e terríveis ditaduras governamentais do mundo, até conseguir a liberdade.

Yeonmi vai contando tudo sobre sua vida, assim podemos entender como era, e ainda é, o regime ditatorial da Coréia do Norte. Ela nos apresenta a história de sua família e um pouco de como desde sempre foram reféns de um sistema autoritário, mas mesmo assim “adorado” pelos norte coreanos. Tal adoração era real…muitas pessoas defendiam o governo em quaisquer circunstâncias. Tais ações possuíam um misto de idolatria divina e um grande temor de qualquer pensamento contrário ao regime ser descoberto pelas autoridades. A propaganda governamental e ditatorial alienante tinha efeitos mais fortes, ao que parece, do que lemos sobre o nazismo.

A infância de Yeonmi é detalhadamente apresentada, junto de sua adolescência e toda a luta de seus pais para conseguirem sobreviver durante os mais pesados e terríveis anos entre as muitas crises em que o país já passou. Acompanhamos as dificuldades familiares ocasionadas pela segregação existente entre castas no país (a família de Yeonmi tinha um songbun inferior, ocasionado pela acusação de um crime o qual um parente antigo teria cometido. Pois se o membro de uma família comete um crime grave, todos da família são considerados culpados) e as várias tentativas de seus pais em conseguir trabalho, até se tornarem contrabandistas de produtos chineses (uma prática tão usual e corriqueira na Coréia do Norte, que o suborno pago para algumas autoridades garantiam alguns “olhos fechados”). Após a prisão de seu pai e quanto tudo já parecia não possuir mais solução, a fuga para a liberdade era a única esperança de sobrevivência. Tudo isso vai sendo contado e esclarecido no livro de maneira muito sentida, desde o conflito com os traficantes de gente e também a tentativa de estupro na qual ela passou. O relato de Yeonmi é deveras triste e até impressionante.

Eu não estava sonhando com liberdade quando fugi da Coréia do Norte. Eu nem mesmo sabia o que significava ser livre. Tudo que sabia era que, se minha família ficasse para trás, provavelmente morreríamos – de inanição, de alguma doença, das condições desumanas, de um campo de trabalho para prisioneiros. A fome tornara-se insuportável; eu queria arriscar minha vida pela promessa de uma tigela de arroz. Mas em nossa jornada havia algo mais do que nossa própria sobrevivência.

O livro vai destrinchando as descobertas sobre os horrores da ditadura norte coreana e as mazelas de viver em contante atmosfera de guerra. A história de Yeonmi é uma narrativa emocionante e impressionantemente forte. O medo de morrer de fome e o amor pela sua família a fez lutar dia após dia pela esperança de encontrar a liberdade. O livro ainda conta com algumas fotos de quando era pequena, da família unida e de quando seu pai ainda era vivo.

É quase impossível (digo por mim) ler sobre o passado de Yoenmi e não se sentir incomodado com o que ainda acontece do outro lado do planeta. Além da óbvia indicação de leitura, deixo com vocês um vídeo de um discurso de Yeonmi sobre sua história.

 

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O livro foi enviado pela editora

 

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