Resenha – Pássaros na boca
por Juliana Costa Cunha
em 18/04/18

Nota:

 

Pássaros na boca, escrito pela autora argentina Samanta Schweblin (1978), que foi considerada pela Revista Granta uma das melhores escritoras jovens de língua espanhola, contém 18 contos.

Passei a leitura destes contos sentindo uma agonia no peito. Samanta utiliza o realismo fantástico como recurso literário, fazendo do absurdo uma coisa comum. Algo surreal, mas que poderia acontecer a qualquer uma de nós. Porém, apenas quando terminei de ler o conto “A mala pesada de Benavides” (já mais pro final do livro) foi que me dei conta do porquê da agonia no peito. Este conta relata o momento em que o personagem mata sua esposa, a coloca numa mala, a leva para a casa de seu psiquiatra (assim interpretei) e a partir daí tenta explicar que matou sua esposa, enquanto seu psiquiatra transforma o fato do assassinato em arte. É um conto que nos coloca cara a cara com nossas possibilidades mais absurdas enquanto ser humano. Liberar o que temos de pior em nós mesmos. Na sociedade do espetáculo em que vivemos, é fácil entender minha agonia.

Considero que é neste aspecto que deve estar pautado tantos elogios à autora. Fazer do fantástico algo real, não é nada fácil. Samanta consegue fazer isso com muita sutileza (por mais paradoxal que seja esta minha frase), utilizando uma linguagem seca e direta.

Para a autora a trama é o que importa. E ela pode ser definida abruptamente, ou ter reviravoltas fantásticas no último parágrafo! Não há explicações sobre porquê tal personagem é assim ou assado. Muito menos algo que venha a justificar suas atitudes, por mais bizarras que elas sejam.

Além do conto “A mala pesada de Benavides”, outros três contos me inquietaram muito: “Meu irmão Walter”, onde quanto mais Walter ficava triste, mais sua família prospera e é feliz; “Conversas”, no qual a personagem principal, considerando precipitado os efeitos da gravidez em seu corpo e no comportamento de sua família, busca um método que a faça postergar esses efeitos sem, contudo, machucar o feto; e, por fim (mas bem no começo do livro), o conto “Mulheres desesperadas”- mulheres abandonadas à beira da estrada até conseguirem entender o que houve e perder as esperanças no retorno de seus homens. Até que um dia eles voltam…

Este é um livro que quero reler em breve. Há muitas nuances em cada conto que talvez ainda tenham passado despercebidas por mim. Terminei de ler o livro, mas ele não saiu de mim.

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