Resenha – Poema Em Linha Reta
por Ragner
em 21/07/15

Nota:

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Há dois meses atrás, nosso caríssimo Thiago resenhou um poema intitulado “Se“, de Rudyard Kipling e gostei bastante. Hoje leio sobre o poema de linha reta de Pessoa e como isso está atrelado a conceitos vigentes no facebook (A sociedade do facebook que anda em linha reta), em um texto de Bruna Kalil Othero. Na hora quis resenhar tal poema e dar meu pitaco de interpretação.

No texto de Bruna, somos apresentados ao entendimento de que na vida online, não somos apenas perfeitos, somos superiores, impecáveis. E ainda vai além, diz que revistas escancaram celebridades como “realeza” e que isso não é um problema contemporâneo, pois Fernando Pessoa, nascido em 1888, já deixa claro que alguns se acham mesmo semi-deuses.

Se deleitem com o poema em questão e logo em seguida discuto um pouco sobre:

“Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.”

Isso escrito em 1888, podemos entender muito bem o quanto a humanidade há séculos é mesquinha, estúpida e diversos outros adjetivos pejorativos. Claro que em diversos momentos na história, o ser humano escancara mais ou menos alguns atributos debilóides e como vivemos em uma era bastante tecnológica, tudo parece mais patente. Redes Sociais são extraordinários criatórios de imbecilidade humana (claro que existem diversas coisas excelentes, mas vamos nos ater ao lado ruim), todos são belos, atléticos, sábios, verdadeiros e justos. Que maravilha de mundo.

No dia a dia, nesse mundão (de Deus, se me permitem) vivenciado por bilhões de pessoas, vários e vários sentem a necessidade de se expor como melhor do que o colega do lado, o vizinho, o amigo, o conhecido, seja quem for. Vários são os campeões e pouquíssimos os que apanham; vários são os que suportam intempéries e poucos são os que encaram a derrota; vários são os que não sofrem e poucos admitem a dor.

Todo mundo (me atrevo a defender) tem seus momentos de sucesso e fracasso, alguns mais outros menos, em qualquer situação, mas ninguém está totalmente isento do que acontece de ruim. É o mundo, ele é assim, não tem como lutar contra a natureza desse mundão. Assim como ninguém é 100% bem sucedido o tempo todo, nós, meros mortais, não somos os únicos “ridículos”. Os “semi-deuses”na verdade são gente, gente como a gente, que acorda com remela no olho e que peida. Não sou o único que possui falhas, que sofre por coisa pequena, que chora quando perde alguém ou que passa por bocó em certas situações. Não há porque se envergonhar por isso. A verdade é que deveríamos nos envergonhar quando acreditamos que somos superiores, que somos melhores, que somos perfeitos. Isso sim é ridículo.

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