Resenha – Precisamos falar sobre o Kevin
por Patricia
em 05/07/12

Nota:

Ano passado, passeando por uma de minhas livrarias preferidas, me deparei com uma capa pertubadora. Comprei o livro sem entender bem sobre o que era, mas com uma sensação de que eu estaria lendo algo forte. Eu estava certa.

Precisamos falar sobre o Kevin é o conjunto de cartas que Eva Katchadourian escreve para o ex marido. São cartas sinceras, beirando o doentio, onde ela confessa coisas que nunca teve coragem de falar. Tudo aquilo que a maioria de nós guarda no lugar mais profundo e horrível de nossas cabeças.

Através das cartas, conhecemos mais sobre Eva, seus desejos e sua história de vida. A pessoa que ela se tornou é tão diferente de quem ela queria ser que acredito que Eva é uma das personagens mais trágicas sobre as quais já li. Ela casa, sente-se feliz e se prepara para seguir a vida como uma mulher completa. Mas nada disso lhe é permitido.

Ao engravidar, ela abre mão de quase tudo aquilo que sonhou para ser mãe. Ela toma essa decisão mais pela convenção da época (que mulher NÃO quer ser mãe? ¬¬) do que por vontade própria. Ela não queria engravidar. Ao invés de se identificar com o filho, ela fisicamente tentou impedir que ele nascesse, “segurando” o bebê e estabelecendo naquele momento o que ela acredita ser uma relação de amor e ódio com o primogênito. Como mulher, posso dizer que ler essa cena foi pesado. Kevin nasce de uma maneira cruel e rasgando mais do que o corpo, a vida de sua mãe.

Kevin é uma criança problemática em todos os sentidos. Desde cedo ele demonstra sinais de egoísmo exagerado, sociopatia e manipulação descarada. Ele faz questão de destruir apenas o que Eva deixa claro que é importante para ela testando Eva até o limite. Sua presença nas cartas é forte e assustadora.

Apesar de Eva  ter certeza de que Kevin a odeia, é difícil saber se isso é verdade já que as cartas são narradas de sua perspectiva. Ainda assim, o poder da linguagem de Lionel Shriver é certeiro. Ela consegue te transportar para a situação fazendo você ver a cena mas, mais do que isso, sentir a cena.

As cartas vão construindo a vida de Eva após o momento mais forte de sua vida: aquele em que filho se torna um monstro. Eva está tentando se reerguer depois que Kevin assassinou nove pessoas na sua escola de uma das maneiras mais terríveis possíveis. Ela foge dos pais das vítimas desesperadamente e evita contato até com pessoas desconhecidas. Ela se isola e é isolada pela sociedade que a culpa pelas ações de Kevin. Se o menino fez tudo isso, claramente ele teve uma péssima criação – é o que pensa a maioria das pessoas – a culpa só pode ser dos pais. Mas o livro vai além, a culpa não é dos pais, a culpada é a mãe. Eva recebe, sozinha, todo o baque do desprezo da sociedade. Pode ser por machismo acomodado, pode ser porque Kevin não tenha lhe deixado alternativa…ela torna-se, então, uma das maiores vítimas de seu filho.

Há alguns anos assisti “Tiros em Columbine” de Michael Moore. O documentário fala sobre dois meninos da cidade de Columbine que decidiram pegar as armas dos pais, entrar na escola, e saírem atirando a esmo. Enquanto o povo enojado e assustado culpava os pais, Moore tentou demonstrar que a violência presente diariamente na vida social e a disponibilidade de armas seriam os maiores culpados. Mas ninguém se solidarizou com os pais desses meninos.

Sempre me perguntei o que se passaria na cabeça desses pais, como seria a vida deles após verem seus filhos se tornarem o símbolo de uma juventude quebrada, violenta e cheia de ódio.  Lionel Shriver parte justamente desse ponto. Ela mostra uma mãe que se vê presa pelo que seu filho fez, pelo desdém que ele parece nutrir por ela, pela destruição que ele causou e pelo julgamento das pessoas que parece confirmar o que ela sempre achou: que ela foi uma péssima mãe. A culpa de ver seu papel no que Kevin fez, destrói o que restava de Eva.

O livro todo é um soco no estômago atrás do outro enquanto acompanhamos a vida de uma pessoa que beira a sobrevivência.

Ela sempre visita Kevin na prisão e a cada visita percebemos a mudança de relacionamento entre os dois. É como se esse fosse o ato de penitência de Eva. No início, Kevin parece sentir prazer na dor que causou mas, aos poucos, ele vai se dando conta dos resultados de sua atitude. De maneira nenhuma é possível pensar em Kevin como uma criança…Eva deixa claro que nem ela parece vê-lo dessa forma. Ainda assim, à medida que ela se dá conta de que nada mudará o fato de que ele é seu filho, que eles estão ligados por uma força que nenhum dos dois vai conseguir quebrar – apesar de tentarem – ela parece encontrar o instinto maternal que estava ausente até então.

É incrível, mas Eva parece se tornar mãe de verdade apenas quando seu filho faz o impensável e precisa dela mais do que nunca – ainda que Kevin nunca diga isso, ainda que ele ria dela, ainda que ele se divirta com o desespero calado no qual ela vive constantemente. A história toda é difícil de resumir mas Lionel Shriver tem um talento inegável para conduzir o leitor através de um drama forte. Utilizando-se de um lado da história que nunca foi contado, ela faz com que nossos próprios preconceitos sejam questionados levantando o debate sobre culpabilidade e  julgamentos pré concebidos

O filme é bom, mas não conseguiu traduzir a intensidade do livro. Por ser uma narrativa em cartas, as palavras têm uma força descomunal e a ausência delas mais ainda e, infelizmente, não acredito que o filme tenha conseguido captar isso totalmente.

Precisamos falar sobre o Kevin é um livro, na falta de uma palavra melhor, visceral. Ele incomoda e faz chorar, se arrepender, repensar e se chocar em todos os momentos certos inspirado por uma triste realidade de crianças que matam crianças e pais que são considerados culpados sem um julgamento.

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5 Comentários em “Resenha – Precisamos falar sobre o Kevin”


Rafael Felipe Gati em 05.07.2012 às 12:05 Responder

Ótima resenha. Já tinha sido apresentado a esse livro, sabia do que se tratava, porém não sabia como esse tema era abordado.

Saber que o autor consegue fazer tudo isso que você falou me deu mais ânimo de ir atrás desse livro para ler. E talvez até veja o filme baseado nesse livro…

Parabéns pela resenha, muito bem escrita.

opoderosoresumao em 05.07.2012 às 12:24 Responder

Olha…eu realmente recomendo esse livro. Eu gostei tanto que acabei de ler e fui procurar outro de Lionel Shriver para comprar. E não me decepcionei. Fazia muito tempo que eu não tinha esse tipo de reação a um livro e a um autor (no caso, autora). =)

thanny em 05.07.2012 às 15:02 Responder

Esse é um dos meus livros preferidos! Não tive coragem de ler com essa capa, tive que pegar a que tem o poster do filme, que assisti antes da leitura e foi o que me motivou a embarcar nessa leitura um tanto perturbadora. Kevin possui uma inteligência assombrosa, desde pequeno ele mostrou para Eva como ele era “mau”. E pelo livro ser narrado por ela, não sei se algumas situações foram escritas de forma exagerada ou se ela fez alguma suposição errônea levando em conta o que já sabia do filho, O livro levanta essa questão, a culpa por tudo o que aconteceu foi realmente dela? Também assisti Tiros em Colombine,na verdade, vi a maioria dos filmes que tratam deste assunto, porque acho interessante #estranha mas é realmente fácil conseguir uma arma nos EUA. Isso já faz parte da cultura deles. Os estudiosos sempre querem uma explicação pra tudo, colocam culpa nos pais, nos videogames, mas e se a pessoa já nasceu predisposta a cometer um crime desses?

Beijos,
whosthanny.com

opoderosoresumao em 05.07.2012 às 15:09 Responder

Essa é uma ótima pergunta. Não entendo muito sobre predisposição e nem li muito sobre isso mas sei que existem vários estudos que tratam disso: ambiente X predisposição.

É complicado. Mas isso só me fez gostar ainda mais do livro…ela tratou a questão de uma forma bem humana, no final. A verdade é que, uma mãe, sempre vai ser mãe. Isso para mim chega a ser poético. rsrs

Bjos.

Rafael Felipe Gati em 06.07.2012 às 12:38 Responder

Bom, não sei se é o caso de Kevin, mas vi algum estudo em algum lugar que dizia haver sim a predisposição para ser mal. Na verdade, a maioria dos assassinos em série possuem a mesma característica, um “defeito” no cérebro que os deixa incapazes de se colocar no lugar das vítimas, sentir-se mal pelo que eles fazem com elas.


 

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