Resenha – Punk
por Bruno Lisboa
em 09/01/19

Nota:

Acompanhar (e registrar) in loco algum acontecimento histórico é exercício dos mais perigosos, pois a falta de distanciamento do objeto de análise, por vezes, faz com que as ponderações (na pior das hipóteses) soem vazias/sem a abrangência. Mas nem sempre esta máxima se faz valer. Prova disso é o histórico Punk, de Antônio Bivar.

Nascido em São Paulo, Bivar é escritor e dramaturgo e tem vasta bibliografia. Como agitador cultural ele participou ativamente dos movimentos de contra-cultura no Brasil, principalmente entre as décadas de 60 a 80, época em que vivíamos as agruras da ditadura. Mas talvez a sua obra de maior relevância, que ainda reverbera nos dias atuais, é justamente Punk.

Lançado em 1982, sob o título O que é punk? (ed. Brasiliense), a obra de lá pra cá ganhou diversas e reedições/atualizações, porém nesta nova roupagem a edições Barbatana optaram, acertadamente, por manterem a essência do texto original.

Encartada por novas ilustrações, criadas pelo músico paulista Kiko Dinucci, Punk é retrato vivo das origens do movimento captado in loco em Londres e em Nova York no final dos anos 70 e suas reverberações em solo brasileiro.

Estando no lugar certo e na hora certa, Bivar conseguiu ver de perto o nascimento de bandas como os Ramones (nos EUA) e, em especial, os Sex Pistols (na Inglaterra) que em 1977 lançaria um dos discos mais importantes do gênero Nevermind the bollocks .

A partir de uma linguagem simples e objetiva, o autor traz à tona a trajetória inicial de um dos movimentos musicais mais importantes da história, partindo de suas origens filosóficas, a influência do ideário beatnik (de Jack Kerouac) e o ar de insatisfação com a sociedade que acabaria por resultar no alicerce da cultura punk: o discurso de protesto e a ideologia do “faça você mesmo”.

A estética punk iria se espalhar pelo mundo e chegaria no Brasil já nos 80. Nesta época Bivar já havia voltado ao Brasil e seguiu acompanhado no front a cena que acabara de surgir. Ao perceber que em São Paulo havia uma forte cena punk organiza aquele que seria o primeiro festival do gênero. Intitulado “Começo do fim do mundo”, o mesmo reuniu em dois dias de evento bandas como Coléra, Ratos de Porão, Lixomania, Inocentes, entre tantas.

O posfácio escrito por Dinucci joga luz no que acontecera a partir dos anos 80, mostrando que apesar dos inúmeros desdobramentos o movimento segue vivo e cada vez mais importante. Afinal o punk, enquanto movimento, é umas das poucas manifestações musicais que segue atenta aos nossos tempos, mantendo viva a necessidade de mudarmos o que está errado.

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