Resenha – Quarto de despejo
por Patricia
em 10/04/19

Nota:

Nasci e cresci na cidade de São Paulo. Apesar da minha família ser do interior do Estado, minha vida foi toda na cidade. A história de SP é recheada de desenvolvimento truncado e mal planejado, corrupção, políticos de caráter duvidoso e muita pobreza misturada com riqueza.

Essa, claro, é também a história do Brasil desde que os portugueses atracaram por aqui. Porém, São Paulo em toda sua história sempre teve um senso de liderança no Brasil que nem sempre me pareceu justificado ou real. A São Paulo que eu conheço tem ótimas universidades, bons postos de trabalho, salários acima do mercado e possiblidades. E também tem pobreza intensa, uma rede de transporte que não serve a todos, a exigência de trabalhar mais horas do que o humanamente possível e um trânsito desesperador. Só para começar. Nem tudo é ruim, nem tudo é ótimo.

Se tem uma São Paulo que conheço pouco, é a apresentada por Carolina Maria de Jesus – moradora da extinta favela do Canindé, na zona norte da cidade. A favela tinha 34.500 metros quadrados e chegou a ter mais de 300 barracos. Eu moro na zona norte da cidade, mas quando nasci a favela já não existia mais.

Favela do Canindé

Em “Quarto de despejo”, Carolina Maria de Jesus, conta como sobrevivia morando com os três filhos pequenos. Sua atividade principal era catar papel, metais e etc e vender pelo que conseguisse. O dinheiro que recebia com a venda, era o que tinha para o dia. Se ela não saísse para trabalhar, não havia dinheiro e, consequentemente, comida. Suas despesas eram contadas no centavo e sua maior luta era receber o suficiente para alimentar seus filhos. Ainda assim, havia dias em que ela fazia sopa de ossos e era o que tinham para as refeições.

Enquanto nos conta como eram seus dias, ela também nos dá uma visão da favela – as brigas constantes, as fofocas, a raiva e o pouco caso dos políticos que visitavam as pessoas apenas em época de eleições com promessas que esqueciam de cumprir depois. Apesar de seus entornos, ela parecia ter uma visão muito apurada do que era o país na época:

O Brasil precisa ser dirigido por alguém que já passou fome. A fome também é professora. (pág. 29)

A democracia está perdendo seus adeptos. No nosso país tudo está enfraquecendo. O dinheiro é fraco. A democracia é fraca e os políticos fraquíssimos. E tudo o que é fraco, um dia morre. (pág. 39)

O custo de vida faz o operário perder a simpatia pela democracia. (pág. 112)

Nascida em Minas Gerais, numa comunidade de negros analfabetos, Carolina Maria de Jesus mudou-se para São Paulo em 1937 quando sua mãe morreu. Ela construiu seu barraco com as próprias mãos usando papelão, latas e madeira – a matéria-prima padrão da comunidade. Quando tinha tempo, ela escrevia. Em seu livro, sua paixão pela leitura e pela escrita é cativante.

O meu sonho era andar bem limpinha, usar roupas de alto preço, residir numa casa confortável, mas não é possível. Eu não estou descontente com a profissão que exerço. Já habituei-me a andar suja. Já faz oito anos que cato papel. O desgosto que tenho é residir na favela. (pág. 22)

O livro derruba alguns mitos que são comuns entre aqueles que só conhecem as favelas por fotos ou novelas: que mora ali quem quer, que todo favelado é bandido e não quer trabalhar e que eles gostam de morar ali. Ditos por aqueles cujos carros tem mais proteção que algumas pessoas, serve para que a maioria feche os olhos para o que pode ser, de fato, a exceção e não a regra.

Quando foi publicado, após ser descoberto pelo jornalista Audálio Dantas, o livro causou furor vendendo 10 mil exemplares em uma semana. Dois anos depois, o livro foi lançado nos Estados Unidos. Até hoje, já foi traduzido para 14 línguas.

Sua escrita dura, sem floreios da realidade e mesmo com erros gramaticais, fazem com que a leitura do livro seja uma imersão completa no seu dia a dia. É impossível não entender sua dor e visualizar seu entorto que tanto a desgostava.

A São Paulo de Carolina de Jesus é a minha. Vivemos na mesma cidade ainda que em realidades tão diferentes. Ler o que era a zona norte na década de 50 de maneira tão crua e direta é triste e ela traz ainda o tom de desesperança do dia a dia.

Você não precisa ser de São Paulo, ou mesmo gostar da cidade, para entender o que é a realidade daqueles que são jogados para escanteio porque isso acontece em todo o país. Ela dá voz a quem não tem nenhuma.

E ainda assim, São Paulo conseguiu apagar os traços do que ela e as demais famílias do Canindé passaram. Passo todos os dias pelo Canindé e soube apenas recentemente que ali existia uma favela. Carolina de Jesus morou no bairro em que vivo hoje, e só descobri quando fui pesquisar sobre a vida dela após o lançamento do livro.

A importância desse livro é trazer à luz tudo o que o progresso destrói. Todas as histórias que desaparecem com as pessoas que a viveram. Carolina de Jesus nos mostra que a pobreza que vemos diariamente é muito mais profunda e antiga do que podemos imaginar enquanto acordamos para mais um dia de trânsito e trabalho. O progresso não pára, mas há histórias que nunca podemos esquecer.

A vida é igual um livro. Só depois de ter lido é saber o que encerra. E nós quando estamos no fim da vida é que sabemos como a vida decorreu. A minha, até aqui, tem sido preta. Preta é a minha pele. Preto é o lugar onde moro. (pág. 167)

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