Resenha – Racismos
por Bruno Lisboa
em 19/11/18

Nota:

Francisco Bethencourt é um historiador português cuja linha de pesquisa, durante décadas, é o estudo do racismo globalmente. Mas, se muitos dos estudos recentes promovem análises ligadas a era da escravidão ou optam por um recorte contemporâneo, Bethencourt vai além ao afirmar que o preconceito racial oriunda de priscas eras, mais precisamente nas Cruzadas no século XI. E o resultado deste profundo, inquietante e pioneiro estudo está em Racismos: das Cruzadas ao século XX.

Lançada em 2013, a obra só em 2018 ganhou edição nacional via Companhia das Letras. O lançamento é “tardio”, mas é deveras oportuno, já que em 2018 celebramos os 150 da abolição da escravatura brasileira (via leia Áurea de 1888). Porém, muito há de ser mudado.

Em seu livro Francisco defende a ideia de que o racismo não parte de uma premissa direcionada, inicialmente, ao negro (como se vê hoje), porém o mesmo é fruto de ações discriminatórias de cunho étnico, diretamente ligado a raça como surgere nos dois primeiros capítulos da obra (As Cruzadas Exploração Oceânica).

Esta ideologia racial é fruto de políticas governamentais que primavam pela soberania e imposição, partindo do colonizador/catequizador que agia de forma excludente, eliminando qualquer traço cultural, ideológico do colonizado. Esta premissa seria referência futuramente para fundamentar e enraizar práticas racistas no âmbito político social em nível mundial.

“Há sempre um movimento político por trás de ações racistas”, Bethencourt em entrevista ao Aliás. 

No capítulo Sociedades Coloniais o autor trabalha a reestruturação da sociedade que cresceria, exponencialmente, de forma miscigenada, mas as minorias étnicas seguiriam sendo varridas para debaixo do tapete já que as políticas governamentais da época (sob vieses econômicos, direitos civis, espaciais, sociais…) discriminavam e segregavam os “não puros” ao redor do globo.

Teoria da raça, penúltimo capítulo da obra, traz a tona a era do cientificismo racial onde tem início estudos direcionados à teoria racial. É desta época estudos relevantes como o de Charles Darwin e também o modo como a variedade de seres humanos foi definida, cristalizada e organizada hierarquicamente. O arianismo, mito que coloca que pessoas com a tez branca são superiores aos da tez escura, é oriundo desta reflexões que tiveram o seu ápice de difusão durante a segunda guerra mundial via Adolf Hitler.

Já no derradeiro capítulo, Nacionalismo e mais além, o autor chega a contemporaneidade e aborda o recrudescimento do nacionalismo nos séculos XIX/XX  que teve como valores extremistas a intolerância étnica/religiosa direcionada a minorias. São desta época manchas históricas como o genocídio armênio e o apartheid, política governamental segregadora implantada na África.

O estudo perpetuado em Racismos: das Cruzadas ao século XX, nascera com intenção nobre que é, segundo o autor, “contribuir para o fim da história do racismo”. Se palavras bastassem esta tarefa seria cumprida aqui com louvor, mas infelizmente, como se vê até hoje, a história da humanidade segue de forma circular, repetindo erros históricos que são reforçados por vozes e ideologias que deveriam ser caladas.

Bethencourt deixa aqui um enorme legado, demonstrando o quão errados fomos e o quanto temos que mudar. Mas em tempos onde a cultura e a busca pela informação seguem desvalorizadas fazem com que, infelizmente, esta obra não chegue nas mãos daqueles que deveriam lê-la.

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O livro foi enviado pela editora.

 

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