Resenha – Se a rua Beale falasse
por Poderoso
em 12/06/19

Nota:

Por Juliana

Se a rua Beale falasse é um romanção. No sentido um tanto quanto açucarado mesmo. O livro já tem filme. Que é lindo. Fotografia, música, iluminação, cenário, figurino, atores e atrizes. Tudo lindo e bem poético no filme. O livro é um pouco mais duro, seco, sem muitos floreios. E traz a força narrativa de Jamis Baldwin.

Este foi meu terceiro livro do Baldwin lido, nessa edição de sua obra pela Companhia das letras. Já li O Quarto de Giovanni e o Terra Estranha e também gostei de ambos. É bem verdade que gostei muito mais destes dois últimos, principalmente do Terra Estranha. Eles têm uma potência narrativa que me agrada mais.

Neste Se a rua Beale falasse Baldwin lança mão de dois personagens centrais – Tish e Fony. Cada um com uma história familiar diferente. Tish tem uma família amorosa. Fony, nunca conseguiu sentir isso em seu meio familiar. Os dois moram no mesmo bairro, se conhecem, se tornam amigos, se apaixonam e são inseparáveis.

Através deste casal Baldwin nos narra o retrato de uma época. Negros e negras sem a menor perspectiva, lutando por sua sobrevivência a cada passo. Estão aqui as questões raciais, o preconceito, a questão de classe, o subemprego para a população negra, o engodo do sonho americano.

Fony é um cara que não aceita muito as regras estabelecidas e, por isso, vive um pouco à margem. Não quer um trabalho formal, mas ser artista. Escultor, mais precisamente. Tish é aquela que busca um emprego de recepcionista para conseguir algum trocado. Os dois, vivem sua paixão até que um fato acontece e Fony é preso injustamente. E Tish descobre estar grávida.

A partir daí temos toda a luta de Tish e sua família, mais o pai de Fony, para tirá-lo da prisão. E é aí que o livro ficou um tanto quanto indigesto pra mim. Mesmo que eu entenda todo o amor de Tish por Fony, colocar toda a responsabilidade pela sobrevivência dele na cadeia e pela possibilidade de sua liberdade nas costas de Tish foi um pouco demais para mim.

Porém, tendo lido os outros dois livro, e já mais ambientada com a escrita do autor, me pergunto se isso também não é proposital na história. Aquela coisa de dizer que um só tem ao outro para conseguir sobreviver. Deixando explícito que, se depender do sistema, não haverá liberdade.

Juro que terminei a leitura com esses questionamentos. Achando que foi o livro que menos gostei dos três. Mas me perguntando “cadê a próxima publicação dele por aqui?” Cadê?!

***

Por Bruno Lisboa

Quando o assunto é literatura e militância James Baldwin é um dos maiores exemplos do século passado. A partir de olhar cru e poético, por vezes na mesma medida, o autor consegue traduzir de maneira literal as dores do mundo ligadas, geralmente, às condições de vida impostas ao negro numa sociedade onde o racismo e preconceito são predominantes. E é este universo que Se a rua Beale falasse aborda.

Lançado na década de 70, a obra tem como protagonista um jovem casal (Tish e Fonny) que vivem uma vida simples, ao lado de seus familiares e amigos, e enfrentam diariamente as agruras de serem negros. A vida é a dura, mas ambos acreditam que o amor mútuo é a melhor resposta para tempos no qual a sociedade os excluí. Porém, um acontecimento inesperado e injusto (Fonny é acusado erroneamente de estupro) faz com que as suas idealizações caiam vertiginosamente por terra.

Baldwin ambienta a história de forma exímia, contextualizando o enredo no bairro do Harlem (EUA), recriando-o de maneira vívida por sinal, e utiliza a música negra contemporânea da época como trilha sonora mental para vários momentos pontuais da obra. Além disso o autor faz uso da linguagem informal da época (carregada de gírias e palavrões) como elemento da história, o que faz com que ela se torne ainda mais verossímil.

Se a rua Beale falasse é uma alusão não só ao local onde Martin Luther King foi assassinado, mas também funciona como uma crítica voraz ao american dream, que faz com que as projeções de vida sejam destroçadas, principalmente quando se é negro num país historicamente racista.

Recentemente a obra ganhou uma elogiada/premiada adaptação para o cinema com direção de Barry Jenkins (Moonlight). Ambos se comparados tem muitos pontos convergentes quanto ao enredo, mas diferem em outros tantos. Na dúvida, fique com ambos.

Livro enviado pela editora

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