Resenha – Se vivêssemos em um lugar normal
por Patricia
em 07/10/15

Nota:

Unknown

 

Em 2012 li Festa no Covil, obra de estréia de Juan Pablo Villalobos. O livro, narrado pelo pequeno Tochtli cujo pai é um traficante de drogas mexicano,  foi uma excelente surpresa e entrou na lista de melhores leituras daquele ano. A idéia de ter um narrador jovem e inocente, alheio à realidade brusca e sufocante ao seu redor, tornou a leitura muito mais leve do que seria se narrada de outra maneira. Uma escolha inteligente do autor para aproveitar algum tipo de humor em um tema tão difícil.

Em “Se vivêssemos em um lugar normal” Vilallobos repete a dose. Conhecemos Orestes, filho de um professor e uma dona de casa que tem ainda outros 6 irmãos – todos com nomes inspirados nos gregos (seu irmão mais velho chama-se Aristóteles). Orestes é quem vai nos apresentar ao seu dia a dia no barraco da família – que ele chama de “caixa de sapato” – onde comem apenas quesadillas todos os dias, alternando apenas na quantidade de queijo de cada quesadilla, o que rende uma interpretação inteligente sobre os impactos da economia no cotidiano: se as coisas vão bem, as quesadillas têm mais queijo. Se vão mal, o queijo diminui. E se estão péssimas, sua mãe apenas escreve a palavra “queijo” dentro da quesadilla deixando a imaginação dos filhos preencher o buraco na barriga.

Orestes em nenhum momento parece entender o quão pobre sua família realmente é – apesar de saber que são bem pobres. Isso fica ainda mais claro quando uma família de poloneses constrói uma mansão bem ao lado do barraco. Ali, lado a lado estão os dois pontos da sociedade local: quem tem muito dinheiro e pode comer bolachas recheadas e quem tem coisa nenhuma e só fica na bolacha Maria. Se a pobreza pode ser explicada de alguma maneira para crianças, aqui está uma diferença paupável.

Em certo momento, Orestes foge de casa com Aristóteles para buscar os gêmeos que sumiram enquanto a família ia ao mercado. A história quase que tem um tom de fantasia pois os irmãos saem para encontrar os alienígenas que Aristóteles tem certeza que sequestraram seus irmãos. Orestes decide que não vai voltar para casa. Foge para uma cidade próxima e ali desenvolve uma maneira de sobreviver. Pode ser tudo verdade, pode ser tudo sonho de criança, não sabemos com certeza. E nem precisamos saber. Acompanhar Orestes é entender melhor a vida na pobreza extrema e como os interesses políticos permitem que as coisas fiquem ainda piores (e sim, temos paralelos interessantes a traçar com nosso Brasil).

Se Festa no Covil abordava o tráfico de drogas, este trata do tema da péssima distribuição econômica do México. Juntos, os livros pintam um quadro não muito bonito do país e retratam a péssima perspectiva para a geração atual. Sem usar em nenhum momento o tom de crítica e com escolhas certeiras de narradores, Villalobos consegue fazer com que o leitor sinta empatia pela situação, esse sentimento tão em falta hoje em dia.

O livro é curto, estamos falando de 160 páginas, mas seu contéudo deixa a sensação de que acabamos de ler um calhamaço cheio de informações importantes sobre a economia, a vida dos pobres e sobrevivência no México. Villalobos é um talento impressionante.

O autor já lançou mais um livro – Te vendo um cachorro – que saiu também pela Companhia das Letras esse mês.

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