Resenha – Só garotos
por Patricia
em 04/07/16

Nota:

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Confesso que nunca tinha ouvido falar de Patti Smith até adquirir Só garotos (tem resenha de Linha M aqui no Poderoso feita pelo Bruno). Como uma pessoa relativamente desconectada do mundo musical, que costuma seguir sempre as mesmas bandas e ouvir quase sempre as mesmas coisas, não sou uma profunda conhecedora da cena underground de música que surgiu com força total na década de 70 nos Estados Unidos. Patti Smith esteve presente em momentos históricos dessa cena e em seu livro Só garotos, ela nos apresenta ao mundo quase mágico de Nova York naqueles tempos. Além disso, ela também nos conta como foi viver parte de sua vida com Robert Mapplethorpe – que viria a se tornar um fotógrafo famoso e controverso ao retratar o submundo sadomasoquista da cidade.

Só garotos tem o título ideal – quando Patti e Robert se conheceram era exatamente isso que eram. Garotos que não tinham a mínima idéia de como iriam ganhar a vida e muito menos o que seriam. Muitas vezes passaram fome, frio e/ou dormiram na rua (Smith chegou a dormir até em um cemitério) por falta de dinheiro. Apesar de Nova York não ser uma cidade fácil para quem não tinha condições econômicas razoáveis, a cena artística estava bombando e nome como Janis Joplin, Andy Warhol e Jimi Hendrix frequentavam lugares relativamente pouco glamourosos e acessíveis. A cena em que Smith bate um papo com Joplin depois de um show em um atmosfera tranquila, sem pressão, sem estrelismos e sem rodeios ilustra bem como a cidade borbulhava artisticamente.

O livro começa com Patti nos contando um pouco sobre ela mesma, sobre como foi sair da casa dos pais e se jogar na cidade sem nenhum plano em mente. Confesso que esse começo me pareceu mais arrastado porque é um tanto quanto – atrevo-me a dizer – clichê para livros que retratam esse momento da História. Parece ser um conceito padrão daquela época que jovens recém saídos da adolescência testassem os limites de sua liberdade atrevendo-se a explorar o que antes só ousavam imaginar.

Tal como a vida de Patti, tudo muda quando Robert entra em cena. A imensa personalidade dele salta das páginas e o livro ganha novo ritmo. A partir daqui as histórias que se seguem são quase impossíveis de largar. De uma maneira fluída, com detalhes na medida certa, Patti nos conta como foi descobrir seu amor por Robert; conhecer sua família extremamente católica; entender que ele tinha um lado mais escuro e denso que precisava ser explorado e como ela acabou aceitando isso. Robert, em suas idéias de fama e dinheiro, fez basicamente de tudo, mas o que realmente o colocou no caminho que ele seguiria para o resto da vida – de uma maneira ou de outra – foi tornar-se michê. Em contato com um submundo de sexo, drogas e descobertas, Robert encontrou a inspiração para os trabalhos que o tornariam ímpar no mundo da fotografia e também o fariam compreender melhor sua própria sexualidade.

A relação dos dois parecia transcender qualquer dificuldade e Patti mostra isso em mais de um momento; quase como se eles tivessem encontrado uma sincronia exata que os permitia ser quem eles realmente eram, isolando as cobranças da sociedade – motivo pela qual ambos conseguiram marcar seu lugar na arte. A cumplicidade que um encontrou no outro foi exatamente o que precisavam para que fizessem o que lhes era certo, quer fosse o mais adequado ou não.

Quem conhece um pouco da história dessas décadas, consegue prever o que vai acontecer com Robert. Patti, por outro lado, tem um desfecho bem diferente do esperado (na vida pessoal, na vida profissional ela trilha o caminho que parecia claro desde o começo). O livro pretende, mais do que ser uma biografia completa, ser apenas a história de Patti e Robert – esse casal tão inusitado que quase representa tudo o que os Estados Unidos estavam se tornando na década de 70. Um verdadeiro testamento ao  amor, à aceitação e a beleza de um companheirismo real.

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2 Comentários em “Resenha – Só garotos”


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Eva Mudocci em 03.01.2017 às 19:01 Responder

Que resenha MA-RA-VI-LHO-SA! Diga-se de passagem: muito melhor do que a que eu tentei fazer sobre o mesmo livro. De qualquer modo, gostei bastante de ler a Patti Smith. Adorei esse livro, para ser franca.
Se puder, faça-me uma visita também: http://www.abibliotecades.blogspot.com

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Patricia em 03.01.2017 às 21:51 Responder

Opa!! Muito obrigada! =) Sim, gostei muito da Patti também. Aliás, já coloquei o Linha M como meta para esse ano. Tenho altas expectativas. =)
Vou lá conhecer seu blog também. 😉


 

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