Resenha – Sob a redoma
por Patricia
em 16/05/16

Nota:

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Chester Mill é uma cidade pacata do interior do estado do Maine, Estados Unidos. O militar reformado Dale Barbara, depois de enfrentar alguns problemas com jovens encrenqueiros da cidade, resolve que está na hora de se mudar. Algo, porém, impede que ele saia da cidade. E não é um sentimento ou uma metáfora. Uma barreira invisível que impede que qualquer matéria a ultrapasse surge sobre a cidade transformando aquele espaço em uma prisão.

Quando a barreira cai sobre a cidade, mais tarde esta barreira será chamada de redoma, mortes acontecem por todo lado. Os primeiros capítulos do livro são uma sequência de mortes e sangue: algumas causadas pela redoma, outras não. Não demora muito para a situação virar um caos completo.

Big Jim, o segundo vereador da cidade e aprendiz de ditador, rapidamente descobre que o isolamento apaga diversas questões legais e que alguém precisa assumir o controle das coisas. Quem seria mais apropriado do que o segundo vereador que tem a maioria das pessoas na mão (compradas ou através de chantagem) e com um grande segredo para proteger? Big Jim entra em ação determinado a preencher o vácuo de poder. Porém, Barbara é chamado pelo Presidente dos Estados Unidos de volta aos militares e promovido a Coronel com uma missão clara: assumir o controle de Chester Mill e trabalhar junto com os militares do lado de fora para eliminar o que quer que seja que tenha criado a redoma.

A teoria maquiavélica diz que um líder deve ser amado ou temido, de preferência muito temido. A crueldade da política pode ser perdoada em certos contextos (ou amenizada) e já vimos na História alguns exemplos de populações inteiras que aceitaram o medo e acabaram por enveredar por rumos tenebrosos (Alemanha em 1923 ou EUA em 2004, são dois exemplos). Na mais recente temporada de House of Cards, para falar de algo que mais pessoas devem conhecer, esse tema aparece nos últimos capítulos como a grande cartada daqueles que pretendem manipular o poder: incitar o medo. O medo é uma arma política poderosa e Big Jim consegue carregar essa arma e mirá-la em seu, agora, inimigo número 1: Dale Barbara.

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Muito mais do que uma história de terror (porque é aterrorizante pensar em ficar isolado numa cidade com os personagens que ele nos apresenta), King consegue definir um microcosmo que poderia representar uma sociedade completa. A definição da estrutura de poder, as chantagens e até os debates que se iniciam logo no começo do livro me lembrou muito o fantástico Senhor das Moscas que nos apresenta um grupo de crianças que também vai reconstruir uma sociedade como bem entende quando acaba isolado em uma ilha. Essa sociedade acaba por refletir o que há de mais animalesco no homem (ou nas crianças).

Enquanto Senhor das Moscas nos garante o susto de ver crianças agindo como adultos inescrupulosos; em Sob a redoma isso já é esperado. Isso porque a narrativa de King garante ao leitor um olhar onipresente – cada capítulo é contado do ponto de vista do personagem narrado. Portanto, sabemos de antemão muito do enredo, mas não tudo. A qualidade da narrativa de King é o que vai manter o leitor preso aqui: se já temos uma idéia do que pode acontecer, cabe ao leitor seguir o caminho para saber onde tudo vai parar definitivamente. E essa qualidade se reflete também quando ele adiciona um elemento sobrenatural na história: crianças começam a ter convulsões e falam coisas que parecem algo como previsões enigmáticas do futuro.

Ao invés de parecer forçado e fora do contexto, King acrescenta esse elemento de maneira casual quase, transformando o sobrenatural como parte da história com um encaixe perfeito. O nível de descrição do autor é bom para o leitor (mas dependendo da cena, pode acabar por se arrastar um pouco). Para a TV/cinema, porém, cria a cena ideal. Não é a toa que tantas obras do autor já foram adaptadas para a telinha ou para a telona. Sob a Redoma foi lançado oficialmente em 2009 e em 2013 foi adaptada para a televisão tendo como um dos produtores executivos Steven Spielberg.

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Há muito aqui que poderia explicar o surgimento de ditadores: a mídia que tenta defender o outro lado (o da resistência – ainda que também exista a mídia que fica a favor do poder), mas não é forte o suficiente; a “cortina de fumaça” criada pelo medo e que muda a maneira como as pessoas enxergam o outro e o que é diferente (a redoma, nesse caso); a facilidade com a qual as pessoas aceitam coisas que nunca aconteceram antes sem questionar; a necessidade da maioria de ter alguém que “cuide do povo”.

Ainda pode-se fazer uma leitura de como as coisas seriam quando certos recursos naturais acabarem. Na história, Big Jim rouba gás de toda a cidade para uma empreitada ilegal mas, segundo seu mantra, “pelo bem da cidade”. Sem gás e fechada em si mesma, o hospital de Chester Mill, por exemplo, vê um paciente morrer porque o gás acabou e os equipamentos que o mantinham vivo simplesmente desligaram.

Stephen King explora essas questões em Sob a redoma de maneira excelente. E se o leitor não se interessa por esse tipo de análise, ainda resta conteúdo e acontecimentos o suficiente para garantir uma leitura que entretém ainda que pese em alguns momentos. Com tantos personagens, é difícil amarrar a história de todos e o final do livro deixa a desejar. E fica a desejar também do ponto de vista da resolução do principal problema: a redoma.

De qualquer maneira, são 1000 páginas que o leitor quase não sente na leitura. Tem momentos densos, leves, divertidos e horríveis (não espere que falte sangue em um livro do autor). Valeu cada dor no ombro por carregar esse livro para cima e para baixo. 😉

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2 Comentários em “Resenha – Sob a redoma”


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Alessandra costa em 17.05.2016 às 13:00 Responder

Sou louca para ler os livros do King, mas reluto por ser de terror. Assisti o seriado baseado no livro e de fato, algumas partes são fortes. E o Big Jim?! Que homem inescrupuloso!!! Parabéns pelo texto!

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Patricia em 17.05.2016 às 13:03 Responder

Eu tinha isso também, Ale. Sou uma cag*** quando se trata de terror (rsrsrs)..mas eu sinto um aspecto muito mais humano nesse livro. No fim, o que é mais aterrorizante que os humanos, não é mesmo?! Não me considero uma grande conhecedora de King ainda porque não li tantas obras dele assim. Nesse momento, sou mais uma entusiasta que já comprou mais algumas obras do autor para ler. Mas confesso que aquele com o palhaço na capa me apavora. hahahahaha Beijos! 🙂


 

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