Resenha – Sobrevivendo no inferno
por Bruno Lisboa
em 26/12/18

Nota:

A década de 90, para a música nacional, é geralmente lembrada por ser o período em que a mistura de gêneros atingiu o seu ápice. São desta época, por exemplo, discos essenciais como Usuário (Planet Hemp), Calango (Skank) e Afrociberdelia (Chico Science) que cada um a sua maneira souberam levar o rock nacional à novos patamares.

Mas se o rock vivia momentos de eferverscência o rap, literalmente, comia pelas beiradas e começa a construir uma cena sólida, protagonizada por nomes como Xis, Sabotage e, principalmente, pelos Os Racionais Mc’s.

Se antes a periferia não podia ter a sua voz ouvida nas rádios brasileiras aquela década foi o momento de guinada, onde a MTV e mídia especializada vislumbraram algo que não poderiam mais ignorar. E se há um disco que foi o grande responsável pela guinada este foi, sem dúvida, Sobrevivendo no inferno, clássico do grupo santista.

Lançado em 1997, Sobrevivendo no inferno colocou Os Racionais em evidência, pavimentando o caminho que Raio X do Brasil (1993) já indicava. São de Sobrevivendo hinos como “Diário de um detento”, “Mágico de Oz” e “Capítulo 4, versículo 3” e traziam em sua essência um retrato visceral da realidade da periferia, que ao ser alinhada aos versos mordazes de Mano Brown, Ice Blue e Edi Rock e aos beats pontuais DJ KL Jay fizeram do disco um dos maiores discos da história recente da música nacional, atingindo a marca de 1,5 milhões de cópias.

Para celebrar os 20 anos do álbum a Companhia das Letras fez o impensável: transcreveu todas as letras do disco em forma de livro, encartando-o tal como um livro de poesia. E o ineditismo acabou por dar certo, pois permite ao leitor ter acesso ao universo descrito das letras e conduz a uma imersão ainda maior a mensagem transmitida que, por vezes, pode passar desapercebida.

Para além das letras, o livro é precedido por um prefácio escrito por Acauam Oliveira, professor da Universidade de Pernambuco, que faz uma análise precisa do impacto deixado pelo trabalho, seu caráter revolucionário e o legado deixado.

Para a ocasião teria sido interessante a inserção de um material de pesquisa ainda mais abrangente, como uma entrevista com os integrantes, mas a falta disto não impede o deleite que é ler este fidedigno retrato do Brasil da época, mas que mesmo passado tanto tempo, segue mais atual do que nunca.

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O livro foi enviado pela editora.

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