Resenha – Sóbrios, firmes e convictos: uma etnocartografia dos straightedges em São Paulo
por Bruno Lisboa
em 29/08/18

Nota:

Costumo dizer que a  minha incursão pelo universo da música ajudou, diretamente, na minha formação de caráter. E se há um gênero, em especial, que trouxe uma enorme bagagem de conhecimento para tal fim foi o punk rock. O punk me deu não só uma forma de viver, mas também me ajudou a pensar sobre o mundo ao redor. E que eu não deveria aceitar passivamente aquilo que seria danoso para a sociedade.

O punk, historicamente, possui diversas vertentes e uma das que mais me chamou atenção é a straight edge, cujas principais virtudes são a abdicação de drogas (lícitas ou ilícitas), do sexo promíscuo, a adoção de uma dieta vegana/vegetariana; visando, obviamente, uma vida plena, livre de amarras mercadológicas. Essa cultura underground, criada nos anos 80, foi baseada na canção “Straight Edge” do grupo Minor Threat que versa sobre este princípios. Passados quase 40 anos esta ideologia ainda permanece em voga mundialmente e no Brasil é cada vez mais comum encontrar com pessoas que reverberem estes ideais. Prova disso é o estudo realizado por João Bittencourt no livro Sóbrios, firmes e convictos , resultado da sua tese de doutorado do autor em Ciências Sociais da Universidade de Campinas.

Lançado em 2015 pela editora paulistana AnnaBlume, em  Sóbrios, firmes e convictos Bittencourt imerge na cultura straight edge na cidade de São Paulo. Diferentemente de grande parte dos estudos acadêmicos que soam frios e distantes do objeto de análise, o autor opta pela pessoalidade textual, trazendo à tona uma análise quente e viva de como funciona a cultura straight edge na terra da garoa.

Sob a luz de do filósofo francês Gilles Deleuze, o autor acompanha in loco cada uma das manifestações que retrata. Mas para contextualizar de maneira devida, João inicia sua tese fazendo um apanhado da cultura straight edge nos EUA para depois retomar a cena brasileira que fora muito influenciada (segundo o autor) pela primeira passagem, nos anos 90, do grupo de krishacore norte-americano Shelter (quem não se lembra do hit “Here we go”?), que adotava os valores straight edge associados ao hinduísmo.

Ao acompanhar minuciosamente cada passo dos adeptos em eventos como a Verdurada, o Animal Liberation Fest e o Queerfest, Bittencout consegue traçar um perfil fidedigno dos seguidores da ideologia straight, revelando, inclusive, o quão diversificado pode ser o público que comparece a estes eventos especializado e como as pessoas se comportam.

Por mais que o Brasil careça de estudos voltados a filosofia straight edge e o universo punk,  Sóbrios, firmes e convictos é um importante registro etnográfico/cartográfico de uma pequena (mas crescente) vertente cultural do underground brasileiro, que permanece viva, alheia a preconceitos e a regras mercadológicas.

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