Resenha – Sombras da água
por Patricia
em 17/05/17

Nota:

 

Sombras da água é o segundo volume da série As areias do Imperador do moçambicano Mia Couto. Falamos sobre o primeiro livro da série aqui (que foi uma das melhores leituras que fiz em 2016). Seguimos no mesmo período de tempo que o primeiro volume, a década de 1890 – quando portugueses e a população local de Moçambique estavam em guerra. Aliás, este segundo volume é uma sequência exata do primeiro, dando continuidade à história exatamente onde o volume anterior parou.

Por ser o segundo volume da série, esteja preparado para possíveis spoilers nesta resenha quanto ao primeiro volume.

Seguimos  acompanhando a história de Imani e o Sargento Germano Melo. Em um episódio ao final do livro anterior, o Sargento teve suas mãos basicamente explodidas por um tiro acidental dado por Imani. Como soldado incapaz de sequer segurar uma arma, o Sargento Germano começa a ver seus entornos com outros olhos: Imani que sempre cuidou de seu bem estar, é uma mulher digna de se ter ao lado e ele percebe que não importa o que aconteça, deve garantir que fiquem juntos. Por sua vez, Imani percebe que por sua criação com um pai submisso aos portugueses e sua educação para falar a língua dos colonos como eles próprios, que ela é uma branca no corpo de uma negra – sua identidade será para sempre dividida entre o que as pessoas veem quando olham para ela e o que descobrem quando a escutam falar em perfeito português de Portugal. No Sargento Germano, ela vê uma possibilidade de fugir de um destino pouco promissor: negros amantes de brancos sofrem na guerra. E vice-versa.

Durante a guerra e a matança constante, a relação de cumplicidade que surge entre os dois é um alento.

Neste segundo volume da série, a questão de raça através de um provável romance bi-racial fica bem mais óbvia que no primeiro volume. Além disso, o autor também desmistifica a idéia de que todos os soldados portugueses lutavam na África em total unidade. Um outro personagem que chega acrescentando um outro ponto de vista é o Tenente Ayres de Ornelas, superior de Germano Melo, que busca no Sargento um companheiro militar, mas encontra um homem dividido entre a responsabilidade da farda e seu amor por Imani. Outro militar, o capitão Santiago da Mata, também aparece para demonstrar as incongruências dos militares portugueses – nem todos acreditavam na mesma coisa, não existia unanimidade entre os soldados que lutavam em solo estrangeiro. O próprio Germano começa a ter sérias dúvidas sobre o que os portugueses de fato queriam na África.

Em dado momento, fica difícil saber se estamos vendo uma história de colonização, de destruição, de amor ou de um soldado em dúvida constante quanto ao seu papel. Mia Couto mescla muito bem todos esses elementos para nos entregar uma continuação que mantém o ritmo prendendo o leitor do começo ao fim. O uso de cartas para nos entregar novos pontos de vista, quebra a narrativa e ajuda o leitor a construir o cenário aos poucos. Sem contar que o livro termina bem para já deixar a vontade de ler a sequência.

Não acredito que seja preciso reforçar a poética prosa do autor porque este parece ser o ponto em que todos concordam quando falam de Mia Couto. Ler uma obra de Couto é imergir em um português belíssimo e o uso de histórias africanas acrescentam um tom de magia que faz com que, ainda que aborde um tema muito real – a guerra entre colonizados e colonizadores – nos apresenta uma África que nunca se entregou e nunca abriu mão de suas raízes.

***

O livro foi enviado pela editora. 

Postado em: Resenhas
Tags: , , ,

Nenhum comentário em “Resenha – Sombras da água”


 

Comentar