Resenha – Stalker
por Patricia
em 15/08/18

Nota:

Stalker foi um dos primeiros livros lançados no Brasil pela TAG  – empresa inovadora do setor literário que criou toda uma experiência baseada no envio de um livro surpresa por mês – para sua caixa de Inéditos focada em trazer best-sellers nunca publicados no Brasil antes. A edição é em parceria com a Faro Editorial.

A resenha pode conter spoilers. 

Esta obra da sul-africana erradicada nos Estados Unidos, Tarryn Fisher, é dividida em 3 partes: A psicopata, o sociopata e a escritora. Na primeira parte somos apresentados a Fig Coxbury. Os primeiros capítulos são destinados a contextualizar o problema de Fig com a realidade. Em conversas com sua terapeuta, descobrimos que ela sofreu um aborto no passado, passou por um divórcio traumático com George e sofre de um tipo de paranoia. Ela acredita que o bebê que perdeu reencarnou e ela precisa encontrar sua filha.

Isso a coloca no caminho de Jolene Avery – uma mulher esbelta, mãe de Mercy Moon e esposa de Darius no que parece ser o retrato da família perfeita. Fig está certa de que Mercy é sua filha. Em um ato impensado, ela compra a casa ao lado dos Avery e se dedica a um plano intenso de aproximação do casal.

Em pouco tempo, ela vira amiga de ambos a ponto de obter confidências pessoais e decide que a vida de Jolene, definitivamente, deveria ser sua. Fig acredita estar apaixonada por Darius e que aqui está sua família perfeita. A única coisa no caminho da felicidade que ela sempre buscou é Jolene.

A segunda parte do livro é contada do ponto de vista de Darius. Um psicólogo que fez oito anos de doutorado mas acha que pode diagnosticas transtornos em uma pessoa pelos filmes que ela gosta. Quando soube que Fig gostava de thrillers como Medo e A mão que balança o berço, ele já sabe que “ou Fig é psicopata ou se identifica com eles”. Darius tem segredos próprios – ele costuma se aproveitar de suas pacientes vulneráveis tendo vários casos extra-conjugais. Outro passatempo que tem é espionar a mulher através de seus dispositivos digitais.

A terceira parte do livro tem como foco a própria Jolene que escreve sob um pseudônimo e tem certo sucesso no mundo literário. Jo acredita que Fig é apenas uma mulher solitária e apesar de quase TODO MUNDO ao seu redor, incluindo seu marido, a alertarem contra a moça, ela não acredita. De fato, ela só nota a obsessão de Fig quando a visita em casa e vê basicamente uma cópia de suas ideias de decoração – quase uma versão incompleta de sua própria casa.

***

Toda a premissa da obra é boa (e já conhecida), mas a execução é extremamente falha e se torna impossível desenvolver empatia por qualquer um dos personagens da maneira como a história é escrita.

Além disso, a autora tenta criar reviravoltas de maneira solta. Por exemplo:  o ex-marido de Fig reaparece na historia na parte de Jolene, mas nunca é explicado como isso aconteceu ou porque mal sabíamos dele antes. É como se ele tivesse estado sempre ali só que todo mundo esqueceu de mencionar esse fato. Ou ainda como Fig, que é uma designer freelancer e mal aparece falando de trabalho ou trabalhando, tem dinheiro – e crédito – para comprar uma casa do nada, mobiliar com objetos caros e ainda gastar com presentes para os Avery.

Outro ponto é que Fig passou por um grande trauma – disso somos informados. E depois que ela conhece Jolene, NUNCA MAIS SABEMOS NADA DE SEU TRAUMA. Ela mal toca no assunto com a nova “amiga” e parece que toda sua energia se volta para Darius e não Mercy – como faria mais sentido no caso de uma mãe em busca de sua filha perdida. De fato, temos todo um capitulo dedicado a conversas picantes entre Fig e Darius mas nada similar dedicado ao maior trauma da vida dela. E a terapeuta – você pergunta? Ah sim, apesar de ter diagnosticado Fig com paranóia e saber que ela estava perseguindo essa família, Fig cancela todas as sessões e fica tudo por isso mesmo. Apenas na página 234, com quase 80% de leitura, é que a primeira pessoa lembra de vocalizar que, talvez, não seja uma boa ideia deixar Mercy com Fig pois ela pode ser um risco para a menina.

Claro que deixar o leitor no escuro pode ter sido a intenção da autora, mas é importante lembrar que se nada em uma história nos importa, sob nenhum aspecto, por que continuaríamos lendo? Alguém parece ter dito a Fisher que é só escrever várias páginas e se quando juntar todas elas pararem em pé, então temos um livro. O desenvolvimento de uma história passa por muito mais do que a contagem de palavras, mas autora parece alheia a isso. O resultado são frases como:

A primeiro coisa que fiz ao entrar em casa foi me despir, calça é coisa de perdedores. (pág. 20)

Aposto que a doutora tocava trombone, o que lhe rendeu a cabeça grande. (pág. 27)

Quando voltei para a cozinha, todas pararam o que faziam e se viraram para mim. Olhei pra minha calça, pra me certificar de que minha menstruação não tinha se adiantado. (pág. 50)

Achei maduro e chique ter ressaca. A Kim Kardashian deve sofrer disso sete dias por semana. Pra saber o que fazer durante esse episódio procurei #ressaca no Instagram. Constatei que a maioria das meninas com ressaca usava um coque. (pág. 56)

Na verdade, sempre que o assunto era bebê eu dava um jeito de comentar o quanto eu era lindo. Sim, pode parecer um comportamento estranho, mas era um fato. (pág. 183)

Fisher queria um causo do tipo “mulher desequilibrada tenta roubar a vida de outra”. Mas como esse mote é clichê, ela decidiu adicionar uma camada de trauma para tornar a coisa mais interessante. Só que ao nunca voltar nesse trauma, a camada se desintegrou e terminamos com uma historia….bem, das mais clichês. E pior: mal escrita. A autora mirou em Atração Fatal mas acertou bem longe. Você ainda está melhor com Glenn Close e Michael Douglas.

Postado em: Resenhas
Tags: , ,

Nenhum comentário em “Resenha – Stalker”


 

Comentar