Resenha – Suicídio Revolucionário
por Patricia
em 28/04/14

Nota:

Suicido_revolucionario-CAPA

O debate entre direita e esquerda é algo que hoje me parece um tanto quanto nublado. Apesar de a maioria dos partidos vigentes auto-intitularem-se de esquerda, é de se duvidar que não tenhamos mais direita. A verdade é que essas denominações andam cada vez mais difíceis e complicadas de explicar. Aliás, um artigo muito bom que ajuda e elucidar um pouco o caso é esse aqui. Na época da Ditadura, a distinção entre os opostos era clara. A direita assumiu o poder na figura dos militares e a esquerda tornou-se a resistência ao sistema imposto na época.

Até aqui, as resenhas desse mês sobre o tema Ditadura focaram muito na sistemática dos militares para manterem-se no poder. Falamos de como infiltravam agentes nos movimentos de esquerda, das sessões de tortura que ocorriam nas DOPS e, até mesmo, do planejamento para o golpe.

Na resenha de hoje, o foco será a esquerda e a luta armada. Suicídio Revolucionário é um livro que encontrei enquanto pesquisava mais sobre Mariguella. E decidi resenhá-lo depois de A Ditadura Envergonhada pois o primeiro livro da obra de Elio Gaspari vai até 1968 e Suicídio Revolucionário foca exatamente em como a intensificação da Ditadura nesse mesmo ano causou a evolução da luta armada oposicionista.

Se o objetivo do livro é na estruturação da esquerda, então é razoável focar no PCB (Partido Comunista Brasileiro) que contava com 20 mil associados no ano anterior ao golpe e era o quarto maior partido em número de cadeiras na Câmara dos Deputados.

Quando o Partidão – como o PCB era conhecido – foi considerado ilegal, rapidamente a esquerda se reorganizou. Mas não em uma única frente e, sim, em diversas agremiações menores que começaram, de pouco em pouco, a sair do programa de revolução social que antes defendiam. Exemplo: os movimentos armados assaltavam bancos para, com esse dinheiro, comprarem fazendas. Essas fazendas poderiam ser usadas como base para os sem terra instituindo a tão necessária reforma agrária, ainda que na base mais simples do processo. Só que em essência, o foco central da compra era treinamento de guerrilha. Ou seja, os movimentos lutavam para sobreviver e não estavam mais focados na ideologia central da esquerda. O que era um caminho para a revolução, virou um caminho para a resistência. E essas palavras, aos poucos, tornaram-se antônimos.

Mas e Jango? Ah..Jango estava em cima do muro. Em alguns eventos dizia que não apoiaria as reformas de base exigidas pelos partidos da esquerda e, enquanto estava em outro evento, mudava totalmente o discurso. Poderia ser um caso de sobrevivência política, mas parece ter começado a irritar todo mundo. Quando percebeu que precisaria, invariavelmente, escolher um lado, ele decidiu-se pela esquerda e começou, de fato, um processo de reforma agrária. Porém, veio o golpe e iniciou-se um asfixiamento da esquerda que desmembrou o Partidão em mais ou menos 16 partidos e movimentos menores. Em sete anos, quase todos estariam extintos.

O livro revisa bem as lutas da esquerda e explica o esvaziamento ideológico enfrentado. De luta conta a burguesia e o imperialismo, as alianças revolucionárias passaram a ficar cada vez mais violentas para combater a repressão da ditadura: passaram a combater o efeito, não a causa.  Na 2a parte, o autor vai debater com profundidade a ideologia comunista no mundo e suas propostas de revolução, linkando bem com a luta brasileira de resistência, com referências para dar e vender (se você está pesquisando o assunto para qualquer finalidade, o livro pode ser um bom guia).

A introdução do livro é longa, criteriosa e um pouco enfadonha. Mas isso pode ser porque desde que nasci tenho problemas com introduções muito longas e que repetem a palavra imanente a cada 5 frases (precisa mesmo? rs). 

Esse é o tipo de livro que precisa de atenção redobrada. Nem tanto pela linguagem acadêmica do autor, mas pelo nível das informações que precisam ser bem processadas e, às vezes, relidas. Tive que fazer várias pesquisas durante a leitura. Então, esteja avisado. É um livro indicado para entusiastas e pesquisadores do assunto. Me ajudou a elucidar um pouco a confusão da esquerda atual (ou do que se diz de esquerda). O debate segue, mas se você procura algo com mais fluência e linguagem acessível (caso você seja mais entusiasta do que pesquisador, por exemplo), ainda indico a obra de Elio Gaspari.

***

Outros posts sobre o assunto que já passaram pelo Poderoso:

*Resenha – Diário de Fernando 

*Resenha – O outro lado do poder 

*Resenha – Os infiltrados 

*Resenha – Memórias de uma guerra suja 

*Resenha – A Ditadura envergonhada

*Filme – O dia que durou 21 anos

*Filme – Cidadão Boilesen

*Filme – Mariguella

*Filme – O que é isso companheiro?

*Filme – Cabra-cega

*Filme – Zuzu Angel

*Filme – Pra frente, Brasil 

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5 Comentários em “Resenha – Suicídio Revolucionário”


Claudinei em 28.04.2014 às 15:42 Responder

Caro amigo,
Não consegui encontrar o seu nome na autoria da resenha realizada de meu livro. Mas, na realidade, estou aqui para te agradecer por ter lido e debatido o livro nesta sua resenha. Obrigado!
Um grande abraço,
Claudinei

Paty em 28.04.2014 às 15:45 Responder

Oi Claudinei, o nome fica lá em cima. Mas não se preocupe com isso. =)
Ainda acho que tem muito a ser falado, mas infelizmente em uma resenha como a que fazemos aqui não é possível articular muito mais. Espero que o texto, no entanto, sirva para mais pessoas se interessarem pela obra. O debate ainda exige mais.
🙂

Abraços.

Claudinei em 29.04.2014 às 20:36 Responder

Entendi, agora vi! Muito obrigado. Fico feliz pela existência deste espaço de leituras e debates, e mais ainda por você ter se preocupado em ler meu escrito.

Claudinei em 07.05.2014 às 15:16 Responder

Querida Paty,
No começo de sua resenha você indica um artigo para clarear os conceitos de esquerda e direita no cenário político atual. Se você permite, eu gostaria de sugerir uma leitura, de um cientista político italiano renomado (Bobbio, que não era de esquerda, era um liberal), na qual há uma evidente tentativa de demonstrar como os conceitos de esquerda e direita ainda balizam a trajetória política mundial, apesar da direita negar peremptoriamente uma suposta neutralidade da política no sociometabolismo do capital. Trata-se da obra:
Norberto Bobbio. Direita e Esquerda. Razões e significados de uma distinção política. São Paulo: Editora Unesp, 1995.
Aproveito para dizer que gostei muito do site Poderoso Resumão, e que vocês prestam um papel muito importante debatendo e indicando livros e filmes. Parabéns.

Claudinei em 07.05.2014 às 15:19 Responder

Minha frase saiu estranha:
Onde se lê “apesar da direita negar peremptoriamente uma suposta neutralidade da política no sociometabolismo do capital”
Deve ser lido: “apesar da direita negar peremptoriamente a existência desta bifurcação política, adicionando uma suposta neutralidade da política no sociometabolismo do capital”.
Obrigado!


 

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