Resenha – Te Vendo Um Cachorro
por Ragner
em 10/11/15

Nota:

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Literatura Latina é algo deveras interessante. Preciso mesmo ler muito mais de autores latinos, mas o que já li, gostei um bocado. É uma literatura muito bem definida, com nuances parecidas que exaltam a vida pela América (abaixo do Canadá e E.U.A.) e que discorre sobre assuntos relativos à natureza humana. Escritores como Mario Vargas Llosa, Isabel Allende e o próprio Juan Pablo Villalobos (os que já li) trabalham, ao meu ver, a construção de personagens e seus relacionamentos de maneira bem diferenciada de escritores europeus ou mesmo norte-americanos. E digo isso sem ainda ter conhecido Gabriel Garcia Márquez (que já teve direito até a lista própria aqui no Poderoso e já teve também algumas obras resenhadas por aqui).

Hoje falo de Juan Pablo Vilallobos e seu mais recente lançamento: Te vendo um cachorro. Dois outros livros do autor já foram resenhados aqui no Poderoso: Festa No Covil e Se Vivêssemos Em Um Lugar Normal. Os livros formam uma trilogia sobre o México. Cada um sobre um assunto diferente, mas que abordam realidades no país de Zapata e que valem muito a pena conhecer. São romances ficcionais que retratam situações que parecem bem reais. Depois de ler Te Vendo Um Cachorro, já quero demais ler os outros dois e deixar minha estante bem mais lindona (as capas são adoravelmente lindas).

Nesse livro temos Teo, um senhor de 78 anos, ex taqueiro (vendedor de tacos: comida típica mexicana), que se muda para um prédio onde vivem outros velhos que se reúnem para discutir literatura entre outras atividades recreativas. Esses senhores se portam como “tertulianos” (tertúlia: coletivo de pessoas reunidas em prol de um mesmo objetivo) e seguem as decisões literárias de Francesca (uma mulher curiosa e enxerida, que insiste que o novo inquilino é escritor), a líder, que escolheu “Em busca do tempo pedido” como livro a ser estudado. Teo se esforça na tentativa de ter alguma relação física com Francesca ou mesmo Juliette (amiga quitandeira que mora perto), mas não é tão simples e tais relacionamentos passam a ser uma metáfora de como é complicado realizar tais desejos para um senhor de idade.

Teo recebe visitas semanais de um jovem mórmon – Willem – que tenta convencê-lo da existência de Deus. Os dois passam horas conversando e enquanto um debate sobre religião, o outro se esforça a desmontar qualquer construção teísta com sarcasmo, reflexões filosóficas e a companhia da “Teoria Estética” de Adorno. Teo enxerga a vida de maneira diferenciada e Deus não tem muito a ver com isso (podemos aqui observar mais outra metáfora, sobre relações de crença na juventude e na velhice). Nosso querido senhor de idade avançada é um artista frustrado, um tanto hipócrita e beberrão que passa seu tempo praticando o assassinato de baratas, contando histórias de quando vendia tacos com carne de cachorro (em um momento já no presente, tenta vender um cachorro morto para um açougueiro, cachorro esse que ajudou a arquitetar a morte, com uma bola de meia cheia de tripas para comer) e o vício em alguns programas de televisão.

Durante a leitura, somos levados a descobrir mais sobre a vida de Teo, seu passado com sua família e a relação com a arte. O vai e vem da narrativa de Juan Pablo é muito bem construída. Em alguns momentos você até se pergunta se está em uma lembrança de Teo ou se é o presente que se fundiu com o passado, mas tudo vai fazendo sentido e o enredo segue uma fluidez deliciosa. Eis um autor que quero ler mais.

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O livro foi enviado pela editora.

 

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