Resenha – Teoria geral do esquecimento
por Patricia
em 01/04/13

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Teoria Geral do Esquecimento representa minha primeira investida na literatura africana. O angolano José Eduardo Agualusa entrou no meu radar, por assim dizer, depois de sua entrevista no Roda Viva mas só agora consegui finalmente colocar minhas mãos em um exemplar de seus livros.

O livro tem como pano de fundo a revolução angolana que começou como uma guerra pela independência e se tornou rapidamente uma guerra civil em 1975. Angola, como se sabe, foi colonizada por Portugal – e essa colonização durou quase 500 anos. É difícil imaginar um mundo pós 2a Guerra Mundial onde isso ainda poderia ser considerado aceitável. “Milhares de pessoas viviam nos subterrâneos, mergulhadas na lama e na escuridão, alimentando-se daquilo que a burguesia colonial lançava para os esgotos.” Essa frase, logo nas primeiras páginas do livro, cimentou para mim o que foi a luta angolana.

A história gira em torno de Ludo – uma portuguesa que foi morar em Luanda (capital angolana) com a irmã que se casou com um viúvo angolano. Quase todos os capítulos são por seu ponto de vista. Ludo é muito solitária e com a revolução, sua irmã e seu cunhado fogem para Portugual e ela fica sozinha na Angola. Apavorada, ela constrói um muro na porta do apartamento para evitar invasões (que eram normais na época) e está determinada a não sair de casa nunca mais. Seu auto isolamento durará por quase trinta anos.

A forma como as histórias de cada personagem se cruzam em uma Angola destruída pela guerra civil e pelos preconceitos extensos, é muito original e segue acompanhando um país em frangalhos desde a guerra até hoje. Agualusa, que era criança na época da revolução, parece retratar nessas páginas mais do que apenas suas memórias: “Não foi para isso que fizemos a Independência. Não para que os angolanos se matassem uns aos outros como cães raivosos.” – diz um dos personagens.

Agualusa usa a expressão “os anos passam como líquidos” e comprova isso em uma história que incorpora 30 anos de mudanças em apenas algumas páginas. É realmente bonita a forma como ele descreve a passagem do tempo para cada personagem. Quatro anos passam em menos de dois parágrafos e temos a sensação que o personagem não sentiu nem um dia. Isso pode ser também um sintoma de como o mundo viu essa revolução – como só mais uma guerra civil na África, que iria passar logo, que apenas os envolvidos tinham que fazer alguma coisa – o que, claro, era muito diferente para quem a viveu diariamente.

No meio disso tudo, aprendemos um pouco sobre a cultura angolana, seus mitos e, até mesmo, sua culinária. E nosso Brasil aparece também já que nossa cultura está tão entrelaçada tanto com a portuguesa quanto com a africana.

Ludo também é uma excelente metáfora para uma África que por muito tempo ficou presa atrás de uma parede imaginária de guerras do lado de lá e olhos fechados e indiferença do lado de cá.

Para quem se interessa por romances históricos, essa é uma boa pedida. Para quem tem interesse no assunto África e quer se aventurar pela literatura local, essa é uma excelente pedida. Agualusa não deixa nada a desejar como romancista. Como ele mesmo diz: “um homem com uma boa história é quase um rei.” 

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