Resenha – Terra Estranha
por Juliana Costa Cunha
em 20/12/18

Nota:

Eu já posso dizer com muita tranquilidade que James Baldwin foi minha descoberta como autor em 2018. A autora foi a Aline Bei com seu incrível O Peso do Pássaro Morto“.

Aqui no Poderoso já resenhei Quarto de Giovanni“, também do Baldwinque me deixou igualmente encantada com sua escrita. Uma linguagem de fácil compreensão para tratar de temas densos e difíceis.

Em “Terra Estranha” o autor traz novamente as questões de gênero, raça e classe permeando as histórias de suas personagens. Apresenta as personagens negras do Harlem e faz um passeio pela França, quando o personagem Eric resolve sair (ou seria fugir?) da acolhedora e libertária Nova York (que no livro não parece ser tão acolhedora assim). Dessa forma ficamos, enquanto leitores, transitando entre o Harlem e o Village, dois bairros distintos na mesma cidade.

O livro não traz uma personagem principal, embora a história se desenvolva em torno da figura de Rufus – negro, homossexual e músico de jazz. A partir dele as histórias vão se desenrolando e se misturando. Assim conhecemos Eric, Richard, Cass, Ida, Vivaldo e Yves. É interessante a observação feita por Silviano Santigo, em seu texto ao final do livro, no qual ele compara a forma narrativa de Baldwin a um jogo de vôlei e seus atletas. Uma relação de parceria e complementaridade, onde a ausência de um faz o desfalque na história, mas a entrada e saída de personagens ao longo do livro compõem a equipe.

Essa é uma das grandes sacadas do livro pra mim e da forma de narrar a história. Os personagens “passeiam” pelos temas citados acima narrando suas vidas. Seus medos, angústias, inseguranças, percepções sobre ser negro e ser branco em sua época, as relações afetivas entre brancos e negros, muita bebida e muita efervescência cultural da época.

As personagens desta história estão perdidas. Sejam elas negras ou brancas. Com ou sem grana. Estão perdidas. E todas estão em busca de amor. Cada uma, do seu jeito, relaciona-se com si mesma ou com alguém tentando encontrar amor e amparo para o caos que é a cidade e sua época. E nessa busca as relações se dão e se misturam de forma tão natural (a menos essa é a leitura que faço), que ao final do livro essa abordagem sobre este ser um livro que também trata da homossexualidade, para mim, se perde.

Há uma fluidez nas relações sexuais das personagens masculinas deste livro que me encantam. Lógico que essa fluidez não é retratada pelo autor como sendo tranquila para essas personagens. Elas estão a procura de suas identidades, se questionando e, inclusive, tentando outras vias de afeto. Mas há uma tranquilidade incrível na forma como o autor conta isso. E pensar nesta tranquilidade, naquela época, é de cair o queixo. Não à toa Baldwin foi tão criticado. Não só por esta abordagem sexual, mas também pela abordagem racial de seus textos.

O título original desta obra remete à expressão terra de ninguém e é esta sensação que fica ao fim do livro. Essa sensação de total desencontro entre as pessoas e sua época. A sensação da luta pela sobrevivência, com o mínimo de amor possível.

São temas centrais nessa obra, para mim: a rejeição por si próprio, pela família e pela sociedade. Vale muito a leitura!

“Quando você estava começando como escritor, sendo negro, pobre e homossexual, deve ter pensado: ‘Nossa, quão desfavorecido se pode ser?’, afirmou certa vez um apresentador de talk show ao entrevistar James Baldwin. Sem pestanejar, ele respondeu: “Não, eu achei que tinha tirado a sorte grande. Era tão ultrajante que eu tinha de achar um jeito de usar aquilo”.

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Livro enviado pela editora

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1 Comentário em “Resenha – Terra Estranha”


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anonimo.com em 03.01.2019 às 11:34 Responder

Eu sempre leio as resenhas da Juliana, é incrivel como ela deixa o leitor com vontade de ler!
obrigado!


 

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