Resenha – The fatal eggs
por Patricia
em 17/09/18

Nota:

Quando penso em literatura russa, ficção científica não é exatamente o que me vem à mente. “The fatal eggs”, lamentavelmente ainda não traduzido no Brasil, foi escrito por Mikhail Bulgakov que publicou seu primeiro livro em 1925, auge do governo comunista. Suas obras incomodavam o regime porque criticavam o comunismo ou satirizavam personagens importantes. Em apenas cinco anos, ele foi proibido de publicar novas obras. Sua maior obra, O mestre e a margarida (que quero ler o quanto antes e tem edição em português), foi publicada mais de 25 anos após sua morte.

Em, “The fatal eggs”, ou “Os ovos fatais” em uma tradução livre, o autor nos apresenta a Vladimir Persikov, Professor de zoologia e pesquisador. No segundo parágrafo, Bulgakov já nos avisa que Persikov é a principal causa da tragédia que iremos testemunhar.  Ele trabalha principalmente pesquisando sapos. Em 1913 sua esposa o abandonou por um tenor de ópera deixando uma nota dizendo que a dedicação do Professor aos sapos a estava enlouquecendo.

Persikov continuou em sua pesquisa e eventualmente encontrou algo surpreendente: seus sapos pareciam se reproduzir com uma rapidez acima do normal. As células reprodutivas, sob uma certa luz, pareciam ter uma força fora do comum e chegavam a se atacar na fúria pela reprodução. Em pouco tempo, a história vazou e o raio ficou conhecido como “o raio de luz da vida”. A luz, porém, não era o sol – fonte reconhecida de vida na natureza – e sim uma luz proveniente de eletricidade. Um resultado criado, em todos os sentidos, pelas mãos do homem. Aqui vale uma explicação que torna tudo mais interessante: os bolcheviques acreditavam que a ciência os levaria ao “homem perfeito”. O raio do Professor Persikov é, de fato, vermelho.

A notícia vaza e ao ter seu nome divulgado no jornal, Persikov recebe um visitante que o convida a trabalhar para seu país dizendo que “todos sabem que cientistas não são respeitados na União Soviética”. Persikov abomina jornalistas e se sente encurralado com essa nova “fama” indesejada. Alem disso, nem ele entende bem o que está acontecendo ou para que servirá esse “raio de luz”.

Em uma cidade do interior, galinhas começam a morrer sem aviso prévio deixando a cidade, já imersa em pobreza, em completo desespero. Aqui, fica claro o motivo porque Bulgakov ficou marcado pelo regime. Ao retomarmos a esta cidade, o autor nos mostra uma das maiores características russas: transformar tragédia em arte. Musicais, peças e contos foram criados com o tema “galinhas mortas”. Pessoas morrem de fome e o circo cria uma cena entre palhaços para discutir a “falta de galinhas”. O governo criou uma comissão extraordinária para “trazer de volta a criação de galinhas” ao país. Do mesmo jeito que veio, a praga parece ter sumido. Ninguém conseguia explicar o que a causou nem o que a fez desaparecer.

É fácil imaginar que alguém teria a “brilhante” ideia de usar o “raio de luz da vida” para…surpresa….fazer com que os ovos chocassem mais rápidos e, portanto, que as galinhas retornassem à URSS. O que poderia dar errado?

O livro é curto mas a leitura é alucinante. A criação dos personagens, a situação bizarra na qual se encontram e como tudo se encaixa para a catástrofe final, é um trunfo de um grande escritor. Bulgakov conseguiu escrever uma das primeiras obras em que a natureza se torna tão assustadora quanto o homem (alguém devia dar esse livro a M. Night Shalaman para ver se ele entende o que deu errado em Fim dos tempos).

As críticas ao regime comunista, à presunção do homem ao querer manipular a natureza, à ganância do mercado de achar que a ciência está à sua disposição, à um país em que tudo vira piada, à mentalidade de massa quando as coisas dão errado…tudo isso está aqui incorporado à história quase que de maneira sutil. Claro que não sutil o suficiente para que o regime não censurasse, mas ainda assim, o suficiente para não transformar a leitura em uma panfletagem anti-governo.

É uma pena não termos, ainda, uma tradução para o português. Espero que isso mude em breve. Para quem quer ler em inglês mesmo, o nível de inglês seria intermediário, sem muita dificuldade.

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