Resenha – Todos os belos cavalos
por Patricia
em 18/12/17

Nota:

 

Minha relação com Cormac McCarthy começou um pouco truncada. Minha primeira experiência com o autor foi lendo o famoso A estrada, do qual não gostei tanto por diversos motivos, mas principalmente pela forte distopia com a qual não consegui me conectar.

Ao ouvir tantas coisas incríveis sobre o autor, achei que estava na hora de tentar novamente e cheguei ao primeiro volume da Trilogia da Fronteira: Todos os belos cavalos, lançado pela Alfaguara este ano depois de quase dez anos fora de catálogo.

O livro se passa no final da década de 40 e nos apresenta aos primos John Grady Cole e Lacy Rawlins de dezesseis e dezessete anos, respectivamente. Com a morte do pai de John e a perda do rancho da família, que já estava dando prejuízo há algum tempo, Cole não vê mais motivos para se manter no Texas. Afastado da mãe, com quem até tenta um contato sem sucesso, ele e o primo decidem pegar seus cavalos e o pouco que possuem e fogem para o México. Passando por terras áridas, ambos buscam uma oportunidade para seguir a única vida que conhecem: como cowboys que cuidam de cavalos e gados.

A vida no México segue sem grandes acontecimentos – Cole e Rawlins são sempre vistos como “os americanos” e os demais parecem não estar dispostos a conhecê-los. Porém, a vida começa a ficar um poucos mais “animada” quando Cole se interessa pela filha do dono da fazenda na qual está trabalhando – a jovem Alejandra. Alejandra, filha do rico fazendeiro também parece interessada no jovem americano que não tem um centavo no seu nome. Não demora para que a família da moça perceba o que esta acontecendo.

Antes de sabermos o futuro desse relacionamento, Rawlins e Cole são presos. Eles vão aprender que sair do Texas não os exime de problemas. De fato, corrupção e pessoas ruins estão em todo lugar. Na prisão eles terão que, literalmente, brigar por suas vidas e fazer coisas que nunca imaginaram.

***

Do alto de seus 16 anos, Cole é uma representação de um jovem perdido buscando seu lugar no mundo. Sob esse prisma, “Todos os belos cavalos” é um belo romance sobre amadurecimento (o que se chama de coming of age). Quando pensamos em caubóis e histórias baseadas nestes personagens tão estereotipados, romance talvez não seja a palavra que mais apareça à mente (pense nos filmes clássicos de Clint Eastwood). É por isso que qualquer história que nos apresente um outro lado desses “tipos” vem para quebrar esses pré-conceitos. Ao começar o livro, você não espera encontrar trechos como:

Quase falara com ela mas aqueles olhos haviam alterado o mundo para sempre no espaço de uma batida do coração. (pág. 106)

Os laços mais estreitos que algum dia conheceremos são laços de sofrimento.  A mais profunda comunidade é a da dor. (pág. 224)

Pensou que na beleza do mundo havia um segredo oculto. Pensou que o coração do mundo batia a um custo terrível e que a dor do mundo e sua beleza moviam-se numa relação de equidade divergente e que nesse déficit invertido o sangue das multidões podia em última análise ser cobrado pela visão de uma única flor. (pág. 263)

McCarthy consegue ir do árido ao suave em dois parágrafos. E é impressionante o talento do autor para apresentar o cenário, descrevendo cada cena a ponto de parecer quase a narração de um filme. Não só isso, seus personagens são incorporados a este cenário de maneira intuitiva. Homens (ou meninos?) de poucas palavras, Cole e Rawlins têm conversas simples e objetivas, sem muito humor e tão secas quanto seus arredores.

O autor é conhecido por seu uso moderado de acentuação. Vírgulas são escassas e travessões para marcar diálogos são inexistentes. McCarthy parece não seguir nenhuma regra que não queria seguir…sejam narrativas, sejam gramaticais. Em “Todos os belos cavalos”, parte dos diálogos são em espanhol e sem tradução (na versão em inglês também).

Apesar de ser o primeiro volume de uma trilogia, o final poderia encerrar bem se fosse um livro único. McCarthy fecha alguns ciclos e o final da história de Cole poderia ser um final razoável. No geral, fica a dúvida do que virá nos próximos volumes depois de tudo o que aconteceu neste primeiro.

O livro foi adaptado para o cinema em 2000 com um elenco de peso: Matt Damon e Penélope Cruz dirigido por Billy Bob Thorton.

***

O livro foi enviado pela editora.

Postado em: Resenhas
Tags: , ,

Nenhum comentário em “Resenha – Todos os belos cavalos”


 

Comentar