Resenha – Torquato Neto – Essencial
por Juliana Costa Cunha
em 10/07/19

Nota:

Torquato Neto foi, em seus 28 anos de vida, um irrequieto. Uma daquelas mentes que não param de funcionar e, por isso mesmo, produz muito. Mas também sofre bastante. Um motor ligado 24h ao dia. Nasceu em Teresina – Piauí para ser uma das vozes mais marcantes da musica popular brasileira. Mais especificamente do Tropicalismo (mesmo tendo sido esquecido por ele).

Aliás, o fato de Torquato não ser referenciado como um dos precursores deste movimento é até hoje um grande mistério na história da música em nosso país. Talvez sua língua e escrita ferina tenham contribuído para isso.

Torquato teve duas colunas em jornais cariocas – Música Popular (de março a setembro de 67) e Geleia Geral (de agosto de 71 a março de 72). Eram colunas que falavam da nova cena cultural no eixo Rio-São Paulo e que não poupavam críticas ao Iê Iê Iê da turma da Jovem Guarda.

Também não escapava a ele críticas à condução e organização dos famosos festivais da canção da época, responsáveis por lançarem tantos nomes importantes da nossa música. É nesses festivais que a guitarra elétrica começa a ser inserida nas canções da MPB e Torquato era um grande crítico desta fusão.

Em Torquato Neto – Essencial , Italo Moriconi organizador dos textos contidos nesta edição, nos apresenta os textos das colunas de jornais já citados e também letras de músicas escritas por Torquato e amplamente conhecidas nas vozes de Edu Lobo, Chico Buarque, Elis Regina, entre outros grandes nomes da nossa música. No livro, Moriconi nos convida a ler estas letras sem pensar nas melodias feitas para ela. E nos faz pensar nelas enquanto poemas. E elas assim o são.

Italo Moriconi é também o organizador de duas grandes antologias de literatura e poesia brasileira – Os cem melhores contos brasileiro do século e Os cem melhores poemas brasileiros do século, respectivamente. Organizou também o volume com as cartas de Caio Fernando Abreu e um livro sobre Ana Cristina César: o sangue de uma poeta.

Ao longo das páginas de Torquato Neto – Essencial é possível verificar todo o cuidado editorial, mostrando o artista em sua plenitude e se atendo menos às questões relacionadas à saúde mental do artista. Temos as colunas escritas no jornal, temos as músicas, temos textos aleatórios salvos do fogo, temos uma carta linda escrita a Hélio Oiticica e temos, também, textos escritos durante seu internamento no Hospício do Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro, já ao final do livro em 1970. Eu diria que é um dos trechos mais lindos desta publicação.

Torquato morreu em 1972, suicidando-se no dia de seu próprio aniversário, aos 28 anos. Queimou muitas de suas obras. Tinha seus textos como sua vida. Segundo Moriconi “A aventura de Torquato foi uma aventura de vidaobra. O mito era real”

Adeus
Vou pra não voltar
E onde quer que eu vá
Sei que vou sozinho
Tão sozinho amor
Nem é bom pensar
Que eu não volto mais
Desse meu caminho
Ah, pena eu não saber
Como te contar
Que o amor foi tanto
E no entanto eu queria dizer
Vem
Eu só sei dizer
Vem
Nem que seja só
Pra dizer adeus
Adeus
Vou pra não voltar
E onde quer que eu vá
Sei que vou sozinho
Tão sozinho amor
Nem é bom pensar
Que eu não volto mais
Desse meu caminho
Ah, pena eu não saber
Como te contar
Que o amor foi tanto
E no entanto eu queria dizer
Vem
Eu só sei dizer
Vem
Nem que seja só
Pra dizer adeus

***

Livro enviado pela editora

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