Resenha – Tudo o que sei aprendi com a TV
por Patricia
em 15/01/14

Nota:

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Esse livro me chamou a atenção por trazer dois assuntos que me interessam e, de alguma forma, correlacioná-los: filosofia e séries de televisão. Já na introdução, o autor nos explica que o grande foco do que ele vai nos apresentar é como a modernidade alterou/melhorou/manteve conceitos filosóficos antigos.

Fiz um breve resumo com comentários de capítulo por capítulo para mostrar os principais assuntos que o autor aborda e as séries às quais ele os liga.

Ele começa com Buffy para nos explicar que humanos da era moderna vivem mais ou menos como….vampiros. Nossas obrigações são passageiras e nossos vínculos facilmente quebráveis porque temos uma responsabilidade acima de tudo com nós mesmos. Ele cita (o fantástico, por sinal) A insustentável leveza do ser (sério…é muito fantástico!) para dizer que a vida cheia de obrigações é muito pesada, mas a vida extremamente leve não é bem vista socialmente. Ou seja, sentimos essa responsabilidade insana de carregarmos nossas obrigações o tempo todo ainda que elas não sejam essenciais.  Aos poucos, essas obrigações começam a refletir quem nós somos e viram um espelho de nossa identidade. (E aqui cito também Milan Kundera com um bom livro chamado Identidade).

Até aqui, confesso, o autor estava me fazendo pensar.

Mas aí ele começa a se tornar repetitivo e prolixo demais. É uma série de TV sobre uma mocinha que tem que deixar de ser cheerleader para ser caçadora de vampiros, amigo. Vamos com calma. Eu estava no primeiro capítulo e comecei a ficar um pouco enjoada.

Mas seguimos em frente porque perseverança é essencial para alguns livros.

Capítulo 2 tem Sopranos e a análise sobre a possibilidade de uma pessoa boa fazer coisas ruins com uma pitada de Platão e seus pensamentos sobre a alma. Tem Freud também e um debate sobre sofrimento e o bem e o mal. A forma como o autor organizou o capítulo deixou a leitura cansativa.

Capítulo 3 é sobre Sex and the city e felicidade. Confesso que esse eu li para me divertir. Queria saber o que um homem diria sobre um dos seriados mais mulher de todos os tempos. Mas o autor conseguiu deixar o assunto todo sem um pingo de diversão e leveza (conceitos chave da série). Temos Aristóteles e Descartes debatendo sobre felicidade. Precisei de 5 xícaras de café para não dormir.

O capítulo 4 traz a adorada Friends e a questão do amor e do belo. Tem até uma ponta do Mito da Caverna de Platão. Aqui temos análises sobre as diferentes maneiras de um relacionamento dar certo ou não. Razoável e bem embasado mas o assunto é um pouco batido.

No 5o capítulo vamos de 24 horas e conceitos de justiça e moral. Aqui entramos em utilitarismo e Kant. Aliás, para um debate interessante sobre justiça e suas diferentes interpretações, recomendo muito as aulas de Michael Sandel (aqui tem uma – em inglês). Você encontra várias aulas e palestras dele no youtube. Esse é um dos melhores capítulos. QUASE que valeu o livro todo e rendeu alguns aplausos de animação.

6a capítulo temos Seinfield e a questão egoísmo X individualismo. Esse também consegue redimir os capítulos passados. O autor vai do debate inicial a capitalismo e uma vida de aparências e amarra bem o tema com citações bem colocadas. Vem então Os Simpsons e divagações sobre a vida e como ela vale a pena ser vivida provando que talvez desse para salvar o livro mas não foi possível porque o autor não conseguiu desvincular seu pé da jaca.

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O livro fecha com Frasier e idéias de como podemos conhecer melhor o nosso verdadeiro eu.

O que senti o tempo todo lendo esse livro é que Mark Rowlands foi amigo de sala de Alain de Botton. Mas aquele amigo que senta no fundão e tenta colar da prova do sabe-tudo. Ele se utiliza de séries modernas para tratar de um assunto que exigiria muito tempo de estudo, tentando diluir a filosofia de maneira a facilitar a interpretação. Isso seria realmente louvável se ele tivesse conseguido.

Nem todo mundo vai gostar de O mundo de Sofia (que eu adoro) mas também não dá para diluir filosofia pura em séries que têm por objetivo quase único entreter o telespectador. Quanto mais eu lia, mais eu ficava com a sensação de que o autor estava tentando abraçar o mundo – falar de muitas séries e muitos filósofos e várias vertentes de pensamentos e zás.

Como uma pessoa não formada em filosofia, o conteúdo pesado mascarado de leve me deixou cansada do livro com certa rapidez. Li me arrastando e esperando surgir a empolgação. Infelizmente, não aconteceu. Ainda acho que Alain de Botton conseguiu melhor resultado (nos livros dele que li até agora, pelo menos) em unir filosofia a assuntos atuais.

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