Resenha – Um amor feliz
por Patricia
em 07/06/17

Nota:

 

Wislawa Szymborska (Vissuáva Chembórsca – aos que tentarem pronunciar o nome dela) foi a primeira autora polonsa a levar um Nobel de literatura recebido em 1996. Ainda assim, seu primeiro livro no Brasil só saiu em 2011 (o título Poemas – coletânea com 44 poemas da autora). Em Um amor feliz, traduzido diretamente do polonês por Regina Przybycien temos poemas sobre temas diversos e de estruturas também bem diferentes: a poetisa não segue nenhum padrão específico para seus poemas – curtos, longos, 6 estrofes, 3 estrofes, rimados ou não –  ela se aproveita de todo o arsenal possível de sua imaginação para nos entregar poemas delicados e articulados que só quem viu seu próprio mundo mudar várias vezes poderia alcançar.

“Uma nuvem de gente sobre o país seguiu,

nuvem grande, chuva pouca, uma lágrima caiu, 

chuva porca, uma lágrima, secura. 

Os trilhos dão em uma floresta escura. 

Sim, é assim, segue pelos trilhos o trem. 

Sim, é assim. O transporte dos gritos de ninguém. 

Sim, é assim. Desperta na noite escuto

sim, é assim, o surdo martelar do silêncio.” [Ainda]

Nascida no hiato entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, ela viveu – e sobreviveu – a momentos intensos da Europa, mas principalmente do Leste Europeu – parte do mundo que ficou sob a chancela da União Soviética e tornou-se comunista. A poetisa navegou essas mudanças aprendendo e se adaptando – seus primeiros trabalhos ecoavam os ensinamentos partidários. Aos poucos, porém, ela se afastou do comunismo e passou a ser uma voz pela liberdade de expressão.

“O abismo não nos divide.

O abismo nos circunda.” [Autonomia]

Por tudo isso, Szymborska consegue trazer para sua obra a mudança no tempo que ressoa no passado e no presente. Em seu poema “Ódio”, ela explica como o ódio se renova, se torna belo para continuar atraindo aqueles com quem entra em contato. E o ódio, como bem sabemos, é atemporal. Em “Salmo” ela fala sobre a superficialidade das fronteiras entre os países e como a natureza, bela e imponente, não se deixa abater pelos limites dos homens. São poemas que se tivessem sido escritos ontem teriam tanto significado quanto tiveram no pós-guerra. As palavras carregam o mesmo peso ainda que o contexto possa ter mudado.

Provando que poetas falam muito mais do que apenas de amor, os poemas que compõe esta obra ainda tratam de outros temas como terrorismo (ela tem um poema dedicado ao 11 de Setembro),  o reconhecimento do tempo ao analisar a si mesmo na adolescência e hoje e, até mesmo, poemas dedicados a autores como Thomas Mann e Marcel Proust. Claro, há poemas sobre o começo e o fim de relacionamentos, Mas Szymborska mostra que é muito mais do que uma mulher esperando rosas.

Entre esses muitos temas, um que sempre aparece é o questionamento de ser e estar, aquelas boas perguntas filosóficas que parece que a poesia consegue tornar mais palatável, mais possível, mais próxima de cada um de nós.

“Não faltariam assuntos, pois temos muito em comum. 
Essa mesma estrela nos mantém sob seu alcance. 
Projetamos sombras na base das mesmas leis. 
Procuramos saber algo, cada qual do seu jeito, 
e somos parecidos também no que não sabemos.” [O silêncio das plantas]

Em uma matéria excelente sobre a poetisa na Revista Piauí de 2007 – antes do primeiro livro de Szymborska ser publicado no Brasil, sua obra é descrita acertadamente como “poesia de assombro”: “Há um espanto de natureza quase darwiniana, suscitado pelo fato de estarmos aqui – nós e não outros. Há o que nasce da consciência de que ninguém está no centro de nada, de que o mundo segue adiante sem o nosso testemunho. Quanto à História, Szymborska a enfrenta sem abrir a guarda para sentimentalismos. O pior acontece, e será esquecido.” A matéria conta, ainda, com alguns poemas da autora e seu discurso no Nobel – que também está em Um amor feliz e, vale dizer que nesta edição, foram mantidos os poemas em polonês.

Se literatura é um compartilhamento de experiências, Szymborska consegue dialogar com o leitor de maneira despretensiosa (o que por si só já quebra alguns preconceitos que podem surgir com a poesia). Com essa edição primorosa, Um amor feliz faz jus ao seu legado e rende uma leitura excelente.

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O livro foi enviado pela editora. 

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