Resenha – Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra
por Patricia
em 10/03/14

Nota:

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Mia Couto é um dos quase favoritos da casa. Ele já apareceu por aqui, na falta de uma, com DUAS resenhas de Terra Sonâmbula e também com um ensaio.

“Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra” começa com uma morte. Nosso narrador – Mariano – recebe a notícia de que o avô está para morrer ou já morreu. Ele sai da faculdade e vai com o tio de volta para sua terra – a ilha Luar do Chão – para se despedir.

O reencontro com a família é marcado por certa tristeza dadas as circunstâncias, mas para aumentar o drama,  a avó decide passar por cima da tradição e pede a ele que organize os procedimentos do enterro causando desconforto nos presentes. Ela teme que a família entre em rebuliço por brigas motivadas por herança e ela acabe na rua como a cunhada Miserinha. Mas aí temos um agravante: não se sabe se o morto está morto de verdade porque o médico diz que acha que sentiu cheiro de veneno no hálito do morto e isso faz com que ele fique preso no limbo, de acordo com a crença local. 

As coisas mudam de figura, no entanto, quando Mariano começa a receber cartas anônimas estimulando-o a aproveitar seu tempo na casa para curar algumas feridas da família. A primeira e, talvez, mais importante é a ferida de sua relação com seu pai. Agora que seu avô morreu, esse seria um momento para que ele reavaliasse a maneira distante com que vinha se relacionando com seu pai – Fulano.

A mãe de Mariano morreu afogada e ele mudou-se para a cidade para estudar. Seu pai não foi despediu porque isso ‘é coisa de mulher’ e não mandava notícias porque acreditava que era coisa de ‘homem fraco’. Complicado. Não tinha como a relação andar muito. Mesmo quando se encontraram alguns anos depois na cidade, Mariano deixa claro que nunca sentiu que Fulano tinha qualquer tipo de afeição paternal por ele.

Mas não é só essa relação da família que anda quebrada: Fulano tem dois irmãos e os três não se dão bem. Um é muito rico – Ultímio – e só visita a cidade raramente e sempre trazendo luxos desconhecidos pois assumiu características ‘de branco’ e não consegue mais se adaptar à simplicidade local. O outro – Abstinêncio – tem inveja da riqueza desse e raiva de Fulano por ter tido coragem de lutar contra os colonialistas há muito, muito, muito tempo atrás e bebe para escapar da vida. Durante a lavagem de roupa suja da família, muitos segredos aparecem e muito perdão é necessário. 

ATLAS RESPONSE

Mia Couto começa contando uma história de morte para nos apresentar uma família que precisa renascer ou, ao menos, se reconectar.

Mais uma vez, o autor utiliza seu livro para nos mostrar um pedaço da África abandonado. Luar do chão está largada às traças. Nem colonialistas, nem quem veio depois conseguiu manter aquela terra rica e próspera. Além disso, o autor junta aqui também um pouco das crenças locais – tribais – dos africanos: o rio guarda o espírito dos mortos e a terra é passível de sofrer feitiços muito fortes. Há um respeito intrínseco pela natureza porque ela é, no fim, dona de tudo (can I get an amen?).

Mariano, que viveu muito tempo na cidade e também tem algumas manias ‘de branco’, começa a ver sua terra natal com outros olhos e, com isso, amadurece muito sua maneira de pensar em todo o sistema vigente. Há momentos que estimulam o próprio leitor a reavaliar o sistema, principalmente no tocante aos colonizadores – depois de séculos, a História toma conta de tudo e acabamos caindo naquele espaço de “bom, já passou”. Na África, no entanto, o sentimento, ou o ressentimento, parece vivo: “Que esses que diziam querer mudar o mundo pretendiam apenas usar da nossa ingenuidade para se tornarem nos novos patrões. A injustiça apenas mudava de turno”; ou ainda “É um desses que pensam que são senhores só porque são mandados por novos patrões”.

Pensando apenas na pequena ilha, eles falam sobre a África inteira. Denominar algumas ações como ‘coisa de branco’ mostra que ainda há uma divisão muito clara na região.

O livro é de uma beleza singular. Foi lendo essa obra que percebi o quanto Mia Couto pode ser comparado com Gabriel Garcia Márquez. Não apenas na maneira poética que encontram para utilizar metáforas mas na forma quase romanceada com que escrevem sobre sua próprias origens. É lindo de se ver e serve de belíssima leitura. 

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3 Comentários em “Resenha – Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra”


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Gabriel Cavalcante em 10.03.2014 às 14:11 Responder

E da-lhe literatura africana aqui! Que beleza! Fui até olhar a Tag pra ver o que já resenhamos disso… Mia Couto manda muito bem, preciso ler mais coisas dele. Boa Paty!

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Paty em 10.03.2014 às 15:27 Responder

Até agora o Mia Couto não decepcionou. Eu terminei 2012 achando Agualusa melhor..mas já estou em dúvida. rsrsrs

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Miguel Junioe em 01.09.2017 às 03:38 Responder

Muito bom, Sempre gostei das obras do Mia couto e a resenha da pagina ta boa


 

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