Resenha – Uma criatura dócil
por Patricia
em 10/04/17

Nota:

 

Dostoiévski é daqueles autores que assustam as pessoas por sua reputação de clássico “difícil” ou algo assim. Uma criatura dócil prova que mesmo que essa reputação o persiga, Dostoiévski também sabe escrever de forma acessível. Aqui no Poderoso, já falamos sobre outra obra sua – O jogador.

Em Uma criatura dócil, o autor explica que esta é uma novela do gênero fantástico. Um gênero que, em sua concepção, exagera aspectos reais para criar algo novo.

O livro é narrado em primeira pessoa pelo dono de uma casa de penhores que nos conta sobre seu casamento com uma jovem pobre de 16 anos. Isso, ele é um homem de meia idade e ela é uma garota de 16 anos….incompletos. Eles se conhecem quando ela passa a frequentar sua loja de penhores tentando vender itens para levantar dinheiro que será usado para anúncios no jornal buscando empregos.  Ela estava desesperada para conseguir algum emprego que a tirasse de casa pois, como era órfã, vivia com tias que a tratavam muito mal.

O dono da loja acaba se entusiasmando com a jovem e ao notar que seu desespero parece crescer, decide que pode ajudá-la propondo casamento – e talvez, de leve, ajudar a si mesmo. Isso não é algo que ele externa com clareza, porém. Durante toda a primeira parte do livro, a descrição da situação é quase como se este senhor estivesse fazendo um favor à jovem. A obra tem o tom de sua época: um homem autoritário e machista que espera que sua esposa seja dócil e submissa. A voz da esposa apenas aparece pela narrativa do marido, como se sua história fosse absolutamente secundária.

Quando finalmente se casam, o narrador percebe que sua esposa não estava desesperada para sair da casa das tias, apenas. Ela continha em si um desespero silencioso que se manifesta na pior maneira possível para um homem de respeito como ele: começam a falar sobre sua mulher e outro homem. Tudo o que ela retém de seu marido, aparentemente, ela conta para outro homem. Aturdido, ele vai tentar decifrar a situação e entender o que é real.

Entre contradições e um discurso que se perde em alguns momentos, ele varia a raiva que sente da situação com um desprezo crescente pela esposa e um senso de humilhação que, aprendemos, estava presente já antes do casamento e piora quando ele descobre quem é esse outro homem com quem a esposa anda se encontrando. É aqui que a faceta mesquinha deste narrador se torna mais evidente: ele não casou porque “estava na hora” ou, nem mesmo, porque queria ajudar a garota. Ao se casar, ele esperava não só a submissão da esposa, mas um respeito e uma idolatria que ele não conseguiu em seus tempos como militar.

Além disso, ele vai descobrir que sua esposa também não entrou nesse relacionamento apenas pela oportunidade de sair da pobreza – ainda que em alguns momentos sua narrativa um tanto quanto pedante dê ao leitor a impressão de que era esse seu maior interesse.

O livro é curto e a leitura é muito fluída. As nuances da história que o narrador deixa escapar à medida que perde o controle, entregam ao leitor uma história intrigante e com boas surpresas. A edição de bolso da Cosac Naify (saudades) é primorosa: além do texto em si, há litografias de Lasar Segall que foram criadas baseadas na excelente história de Dostoiévski. A edição e a história valem cada minuto.

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