Resenha – Uma relação tão delicada
por Patricia
em 16/10/17

Nota:

Relações familiares no geral podem ser bem complicadas. Especialmente a relação entre mãe e filha nem sempre é a coisa mais simples do mundo. Elena Ferrante, autora que explodiu na cena literária nos últimos anos, trata muito bem desse relacionamento em alguma de suas obras de ficção. Ferrante, claro, não é a única a tratar deste tema e, muitas vezes, quando falamos dessa relação, as histórias são baseadas em relações reais. Domenica Ruta segue por esse caminho em “Uma relação tão delicada” quando nos apresenta sua vida com uma mãe bem…fora da caixa.

Kathi Ruta tinha apenas 20 anos quando engravidou de Domenica. Com uma família pouco convencional e sem grandes riquezas, sua mãe decidiu que seguiria em frente e seria mãe solteira. Domenica (Nikkie) cresceu em uma casa suja em um bairro pobre com uma mãe viciada em drogas que, às vezes, também vendia drogas. Sua casa era um convite aberto a qualquer um que quisesse experimentar algo mais psicodélico. Kathi alternava momentos de mãe protetora com acusações contra a filha. Ambas viviam no limiar entre a miséria e a vida boa que não durava muito já que Kathi não parecia animada com a ideia de poupar dinheiro. Além disso, ela se orgulhava de não ser uma mãe comum pressionando Nikkie para matar aula para assistir filmes ou para ter um filho com seu primeiro namorado.

Kathi também se orgulhava de sua postura liberal quanto à drogas. Ela não apenas usava drogas na frente da filha, como a estimulava a usar também. Quando Nikkie fumou seu primeiro baseado – aos 12 anos – sua mãe passou a lhe dar uma saquinho de maconha de presente de Natal todo ano. Foi Kathi, também, quem introduziu pílulas na vida da filha. Nos anos seguintes, Nikkie se formaria em boas escolas e chegaria até o mestrado. Porém, sem conseguir um emprego estável ou que pagasse bem porque estava quase sempre bêbada. Ou precisando de uma bebida. Aos 29 anos, ela finalmente entendeu que era alcoólatra e decidiu que grande parte da sua impotência por se curar era a relação tóxica que mantinha com sua mãe que parecia disputar com ela a todo momento em competições que não faziam sentido.

O momento mais marcante desse relacionamento é, talvez, quando Nikkie é forçada a dormir na mesma tenda que o Tio Vic – um conhecido da família. Todos sabiam que ele era pedófilo, mas se recusavam a tocar no assunto porque todos gostavam dele. A autora não descreve o que aconteceu com palavras, mas deixa nas entrelinhas o que se passou.

As memórias de Ruta começam quando ela era muito jovem e nos guiam por sua adolescência recheado daquilo que ninguém nunca quer passar. A escrita dela é boa e em nenhum momento há o tom de vitimismo apesar de sabermos bem quem deveria cuidar de quem pela ordem natural das coisas. Algumas memórias são transcritas como elas aparecem na memória da autora: como se estivessem envoltas em uma névoa.

Ruta sobreviveu e ainda carrega as sequelas de perder alguns de seus melhores anos para um torpor de drogas e relacionamentos tóxicos. Apesar do tema pesado, “Uma relação tão delicada” é um livro de leitura simples – como conversar com ela sobre sua vida.

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