Resenha – Verdade E Mentira No Sentido Extramoral
por Ragner
em 16/06/15

Nota:

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Eis um textão que fiz questão de resenhar somente uma parte. Discutia sobre ele com um colega filósofo em uma aula durante esse domingão. Programão diria eu. E lendo o texto, durante uma conversa filosófica, decidi apresenta-lo para vocês hoje. Antecipo que é algo mais superficial, um olhar mais aprofundado sobre esse texto de Nietzsche precisaria ser prolongado e uma análise aqui ficaria grande e talvez fosse desnecessariamente enfadonha, pois reflexões filosóficas necessitam de uma atenção que, talvez, uma simples resenha não alcançaria.

Temos alguns livros de filosofia aqui no Poderoso, mas tais resenhas são em termos gerais e englobam tudo no livro, não se destacam em partes específicas ou se dispoem para apresentar conceitos filosóficos aprofundados. Podemos dizer que as resenhas foram ainda dedicadas mais ao público geral e esse texto de Nietzsche (que tem outras obras em nosso Poderoso) será um pouco mais específico, mas não menos interessante.

Nietzsche é sem dúvida um dos filósofos mais iconoclastas e explosivos que existem. Fato que seu livro O Anticristo é uma referência clara e óbvia de seu pensamento em relação às religiões e seu posicionamento em relação à humanidade também é evidente em vários outros livros e textos. Em “Verdade e mentira no sentido extramoral”, Nietzsche discute sobre como somos iludidos com nosso conhecimento e verdade.

No desvio de algum rincão do universo inundado pelo fogo de inumeráveis sistemas solares, houve uma vez um planeta no qual os animais inteligentes inventaram o conhecimento. Este foi o minuto mais soberbo e mais mentiroso da história universal, mas foi apenas um minuto. Depois de alguns suspiros da natureza, o planeta congelou-se e os animais inteligentes tiveram de morrer.

O mundo como a gente conhece, pode ser uma interpretação do que pensamos ou tudo que existe como observamos, pode ser uma ilusão do que pensamos conhecer. Somos mesmo detentores de sabedoria? Ou nossas certezas são criações estapafúrdias de nossa arrogância? Os outros animais sabem que nós humanos somos tão “indispensáveis” e estamos no centro do universo? Será que aquilo que para mim é um fato consumado de minha percepção, também é concludente para os outros seres terrestres?

É no homem que esta arte da dissimulação atinge o seu ponto culminante: a ilusão, a lisonja, a mentira e o engano, a calúnia, a ostentação, o fato de desviar a vida por um brilho emprestado e de usar máscaras, o véu da convenção, o fato de brincar de comediante diante dos outros e de si mesmo, em suma, o gracejo perpétuo que em todo lugar goza unicamente com o amor da vaidade, são nele a tal ponto a regra e a lei, que quase nada é mais inconcebível do que o aparecimento, nos homens, de um instinto de verdade honesto e puro.

Somos dotados de intelecto e isso é inegável, mas diversas vezes o usamos para os mais desnecessárias motivos. Queremos dominar pela inteligência, já que perderíamos tudo se lutássemos pelo poder do mundo através da força bruta. Dissimulamos, enganamos e justificamos todas nossas ações de acordo com nossas intenções já falaciosas por excelência ou por extremo individualismo até mesmo mascarado de boa intenção para com nossos iguais. Somos motivados por sonhos e ilusões que muitas vezes podem parecer boas ações e isso fomenta alguns instintos bajuladores que aparentam ser honestos.

Somente graças à sua capacidade de esquecimento é que o homem pode chegar a imaginar que possui uma verdade no grau que nós queremos justamente indicar. Se ele recusa contentar-se com uma verdade na forma de tautologia, quer dizer, como cascas vazias, ele tomará eternamente ilusões por verdades. O que é uma palavra? A transposição sonora de uma excitação nervosa. Mas, concluir a partir de uma excitação nervosa uma causa primeira exterior a nós, isso é já até onde chega uma aplicação falsa e injustificável do princípio da razão.

Classificamos e identificamos todas as coisas de acordo com nossa vontade ou percepção no momento em que encaramos o que está a nossa frente. Mas o que passa a ser certo e o que fica sendo mentira? Isso pode depender muito do que nossa razão exige da gente, depende de como encaramos e estamos dispostos a encarar tudo.

O texto é grande e discursa sobre mais outras coisas, mas como ficaria enorme aqui, faço essa pequena analise e deixo embaixo um link para quem se interessar em lê-lo inteiro.
Verdade E Mentira No Sentido Extramoral
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1 Comentário em “Resenha – Verdade E Mentira No Sentido Extramoral”


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Gali em 19.06.2015 às 16:22 Responder

Apesar de ser um dos textos mais antigos do autor, ele transpassou esse tempo e o bem representou durante sua filosofia “madura/tardia”. Neste período inicial de sua literatura Nietzsche encontra-se ainda vinculado às teorias Kantianas e sua releitura realizada por ‘neo Kantianos’ como Schopenhauer. Kant na investigação sobre a verdade defende em sua critica os limites do intelecto, Schopenhauer substitui as “honras” ao intelecto pelo conceito de ‘intuição’ sob o comando de uma Vontade primordial; já Nietzsche, além de tratar de tudo isso, tem seu objetivo especulativo voltado à análise dos (impulsos), ou seja, para ele é mais importante nos questionarmos – o porque dos seres humanos atuarem sob impulsos à verdade (vontade de verdade) do que propriamente tentar vislumbrar alguma definição ou conceito explicativo sobre alguma possível veracidade. Nietzsche buscava uma perspectiva sobre a capacidade do intelecto humano em nos “ludibriar” e por que dos impulsos à verdade e a vontade de ilusão, que segundo ele é nada mais do que o instinto de sobrevivência ou autoconservação atuando sobre a vida…


 

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