Resenha – Viva la vida tosca
por Bruno Lisboa
em 01/02/17

Nota:

João Gordo é uma das figuras mais controversas da cultura pop brasileira. Sua fama foi construída tanto na TV (nos tempos áureos da MTV comandando inúmeros programas de sucesso) quanto no mundo da música ao lado dos comparsas do Ratos de Porão, banda essencial do punk / hardcore, que há mais de três décadas aterroriza o cenário brasileiro.

Dono de opinião forte, que não teme represálias, e de um carisma imensurável, Gordo ao longo de sua vida foi do céu ao inferno (por diversas vezes, indo mais ao segundo que o primeiro) e esse é o mote central de Viva la vida tosca.

Escrito pelo próprio, com o apoio e orientação do grande jornalista André Barcinski, o livro é um relato vivaz e divertido, como pede o figurino, narrado em primeira pessoa. Adotando o formato cronológico, a obra se inicia na infância trazendo à tona as agruras do paulistano João Francisco Benedan, garoto que cresceu num lar cujo “regime ditatorial”, por parte do pai que era PM, fez com que constantemente entrasse em conflito como o mesmo já que ele desde sempre foi um controverso. Deste período dedica capítulos ao seu início no rock, a vida interiorana na cidade de Angatuba e o seu retorno à capital.

Já na cena punk de São Paulo, surge de maneira reveladora. Gordo, que foi um dos protagonistas do movimento, conta em minúcias as aflições daqueles que de forma voluntariosa enfrentaram, a torto e a direito, a falta de apoio da imprensa, a aversão de boa parte do público, do governo e da polícia local e, ainda assim, construíram uma das cenas mais importantes do rock brasileiro.

Sobre sua banda, Gordo centraliza sua fala na primeira década de existência dela. Tal escolha, por mais reducionista que seja (afinal a banda segue na ativa até hoje), mostra o grupo desde os primórdios, quando era mais ligado a sonoridade punk, e vai até a safra dos anos 90, período em que se rendera ao metal. Detentor das melhores passagens, os capítulos destinados ao grupo trazem para o leitor detalhes sobre turnês, gravações, parcerias, encontros inusitados com ídolos que ajudam a entender como o Ratos conquistou respeito e longevidade.

Sua trajetória na TV ganha capítulo a parte. Gordo mostra como sua verborragia e versatilidade acabaram por encontrar um público fiel que fez que sua popularidade e carreira crescessem ao ponto de muitos hoje o conhecerem muito mais pelo trabalho em emissoras do que as décadas de servidão à música. Esses capítulos se concentram nos trabalhos realizados em emissoras como a Record e a MTV e apresentam suas avaliação dos erros e acertos relacionados a profissão de apresentador.

Fugindo do formato “chapa branca”, João fala abertamente durante toda a obra sobre seus problemas com drogas que quase acabaram com a sua vida por várias vezes. A história tresloucada que viveu ao lado de Kurt Cobain e Courtney Love no Brasil rende capitulo à parte e mostra o nível de loucura que o vocalista já passou.

Como o prefácio escrito por Fernanda Young aponta, João Gordo é mais do que um anarquista boca suja. Hoje, como o tempo e os tropeços ajudaram a formatar, tornou-se um homem familiar e paternal (casado e com dois filhos), inteligente e versátil que aprendeu com seus próprios erros e se tornou uma grande figura humana, mas sem perder a sua essência anarquista. Nesse sentido Viva la vida tosca é um livro de auto-ajuda nada tradicional. É uma narrativa de superação, sobre luta, sobrevivência e aprendizado.

Postado em: Resenhas
Tags: , , ,

Nenhum comentário em “Resenha – Viva la vida tosca”


 

Comentar