Resenha – Vozes de Tchernóbil
por Patricia
em 30/01/17

Nota:

 

A vencedora do Nobel de 2015, Svetlana Aleksiévitch, já esteve aqui no Poderoso com o seu soberbo “A Guerra não tem rosto de mulher” em já se reconhece o caráter destruidor da escrita da autora que transforma a vida real em uma experiência avassaladora para os leitores. Em “Vozes de Tchernóbil”, ela convida o leitor a dividir uma das maiores tragédias do século XX – a explosão nuclear na cidade de Tchernóbil, na Bielorússia (parte da União Soviética na época). Em 1986, o quarto reator da planta nuclear da central explodiu lançando material radioativo na atmosfera a uma velocidade que mal se pôde calcular – em 5 dias já se identificava radioatividade na África e no Japão. Para os mais jovens (cof, cof), um acidente de similar proporções (mas não de similar resultados) foi o de Fukushima, no Japão, em 2011.

Na Bielorússia (hoje conhecida como Bielorus), estima-se que em torno de 500 mil pessoas tenham sido afetadas pela explosão.

Aleksiévitch não perde tempo nos contando detalhes sobre o acidente já que nos 10 anos que se passaram entre o acontecido em si e o início de sua pesquisa, muito já havia sido escrito. Assim, ela vai direto para os testemunhos daqueles que, de alguma forma, sobreviveram. O primeiro testemunho já nos dá o tom da obra e vou relatá-lo resumidamente aqui e sem contar o final para que vocês possam entender o nível da porrada: uma grávida – Liudmila Ignatiénko – conta como seu marido, que era bombeiro, foi um dos primeiros a chegar no local da explosão. Dada a falta de informação e a determinação do governo em esconder os detalhes, ninguém os avisou que era uma explosão nuclear, que requeriria roupas especiais. Eles atenderam ao chamado com suas roupas normais e mesmo quando entenderam que aquilo poderia ser um atestado de óbito, nenhum abandonou o local.

Em poucos dias, os primeiros respondentes já sentiram os efeitos da radioatividade e foram internados e levados à Moscou às pressas. Liudmila deu um jeito de encontrar seu marido e, contra todas as recomendações, não saiu de seu lado. O tratamento básico durava 14 dias. Mas era um tratamento que permitia ao paciente uma morte melhor, digamos, porque não havia perspectiva de cura. Tudo o que os afetados tocavam se tornava radioativo como uma peste. Em 14 dias o paciente definhava, engasgando em seus próprios órgãos que começavam a se decompor, traídos pelo próprio corpo que expelia o que estivesse dentro. A descrição de Liudmila do estado de seu marido é devastadora. A conclusão da história, mais ainda.

Segue-se a esse capítulo um texto da própria autora sobre seus motivos e pensamentos sobre a questão Tchernóbil, tão próxima dela mesma dada suas origens bielorrusas.

Se em “A guerra não tem rosto de mulher” temos um grupo de mulheres que se ofereceram à guerra e aceitaram o sacrifício que faziam em nome do que acreditavam ser maior que elas mesmas, em “Vozes de Tchernóbil” temos histórias das pessoas que viveram o pior tipo de tragédia: a que não se anuncia. Em “Vozes..” encontramos esposas, maridos, filhos, avós, militares, bombeiros, todo tipo de gente contando os efeitos do desastre e suas vidas antes e depois. E quando você acha que já apanhou o suficiente, aparecem os depoimentos de crianças que lembram-se vivamente do dia do acidente e/ou de como suas vidas mudaram por causa dele.

Eu tenho doze anos. Passo o dia todo em casa, sou inválida. O carteiro trás à nossa casa duas pensões, a minha e a do meu avô. As meninas da minha turma, quando souberam que eu tinha câncer no sangue, ficaram com medo de sentar do meu lado. De me tocar. Mas eu olhava as minhas mãos, as minhas pastas e os cadernos. Não havia nada de diferente. Por que tinham medo de mim? Os médicos disseram que adoeci porque meu pai trabalhava em Tchernóbil. Mas eu nasci depois disso. E eu amo o papai.

Se os relatos deste livro mostram algo, é a fundamental capacidade e vontade humana de sobreviver. Para algumas pessoas isso passa pela negação do acontecimento até a crença sincera de que os cientistas inventaram esse papo aí de radiação – são os mecanismos que elas criaram para não duvidarem de tudo o que conheciam. Se a terra que conheciam desde sempre não as machucava, não brilhava no escuro e dava a mesma comida de sempre, como isso poderia ser algo ruim? Como podiam pedir que deixassem para trás aquilo que conheceram a vida toda?

“Vozes de Tchernóbil” é um livro com reflexões das mais diversas pessoas: daquelas que não perdoam, àqueles que ainda não compreenderam ou maturaram bem o acontecido, até um defensor dos comunistas que construíram a central. Independente do que se pode, pessoalmente, pensar sobre a tragédia estando tão longe, a obra é um dos melhores compilados de relatos disponíveis sobre um tempo em que o homem entrou em guerra contra o átomo. E perdeu.

Durante setenta anos construímos o comunismo, hoje construímos o capitalismo. Antes rezávamos para Marx, hoje rezamos para o dólar. Nós nos perdermos na história. Quando você pensa em Tchernóbil, recai sobre o mesmo ponto: quem somos nós? O que compreendemos sobre nós? Sobre o nosso mundo? Nos museus de guerra – e temos muitos deles, muito mais que de arte – guardam-se velhos fuzis, baionetas, granadas, e no pátio há tanques e morteiros. Levam os estudantes lá em excursão e lhes mostram: isso é a guerra. A guerra é assim. Mas hoje a guerra é outra. No dia 26 de abril de 1986, nós sobrevivemos a uma guerra. Uma guerra que não terminou. E nós…quem somos?

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