Revisitando – A metade sombria
por Patricia
em 02/09/19

Nota:

“A metade sombria” já foi revisada pelo Ragner aqui no Poderoso. Retorno para falar do livro porque aqui sempre damos vozes a todas as opiniões (ou tentamos…rs). Aliás, tem bastante conteúdo sobre livros do Stephen King aqui no site porque temos uma real adoração pelo trabalho dele.

Nesta obra, publicada originalmente em 1989, Thad Beaumont é um escritor não muito aclamado. Seu livro de estréia até chamou alguma atenção mas nada perto do que sua expectativa antevia. Então, em um dia inspirado, ele decidiu criar um pseudônimo e escrever literatura policial – gênero mais facilmente digerido pelo público. A aposta deu certo e assim nasceu George Stark – autor best-seller de livros recheados de assassinatos, sangue e violência. Depois de quatro livros, porém, Beaumont sentiu que estava na hora de aposentar Stark (ajudou também o fato de um livreiro ter descoberto a ligação entre os dois). Assim, ele posou com a esposa Liz, na frente da lápida falsa de Stark em um artigo para uma das maiores revistas do país – a People. Ao se confessar como o verdadeiro autor dos romances policiais de sucesso, Beaumont sentiu certo alívio. O que ele não sabia é que Stark não ia gostar nem um pouco de tudo isso.

As obras de Stark sempre foram extremamente violentas com seu assassino principal, Alexis Machine, tendo um gosto especial por uma navalha para deformar o rosto de suas vítimas. E é com esse mesmo ímpeto que ele decide se vingar de todo mundo que colocou fim ao seu reinado como autor best-seller. Um por um, ele vai atrás das pessoas envolvidas em seu fim, deixando um rastro de terror por onde passa. Mas o que faz com que a situação de Beaumont seja ainda mais tensa é que é seu DNA e suas impressões digitais que ficam nas cenas dos crimes. Mesmo quando se comprova que ele fisicamente não poderia estar nem mesmo próximo do local onde o assassinato aconteceu. O xerife de Castle Rock, Alan Pangborn, é o único possível aliado em uma rede de histórias que parece não fazer sentido.

Beaumont e Stark têm uma ligação que vai muito além de criador e criatura. É quase como uma versão ultraviolenta de Frankestein, em que o criador perder completamente o controle sobre sua criação. Os embates entre os dois são interessantes ainda que demorem um pouco para acontecer. De fato, algumas cenas podem ser um pouco arrastadas ou irrelevantes para a trama – mas isso é Stephen King: ele sempre nos dá algumas coisas a mais sobre os personagens que nos apresenta. Ainda assim, é difícil de imaginar porque a cena do xerife sendo seduzido por sua esposa é relevante (ou mesmo interessante).

O mote de um autor ser perseguido pela cria é divertido (ainda que nesse caso, bem violento). O autor parece sempre ter em mente que suas criações podem assombrá-lo de alguma maneira. Em “Misery”, um dos meus livros preferidos de King, ele coloca uma fã apaixonada (e um pouco insana) para sequestrar o autor de seu livro preferido a fim de saber o que mais acontece. Em “A metade sombria”, King vai além e nos coloca uma história dentro da história. O leitor acompanha um possível enredo de George Stark basicamente se tornar realidade na vida de Beaumont e consegue fazer isso com muita clareza, sem confundir o leitor em momento nenhum.

Aliás, como em algumas outras obras do autor, parte de sua própria vida deu base para a história. Entre 77 e 82, King escreveu sob o pseudônimo de Richard Bachman. Ele também teve que assumir sua “identidade secreta” quando um livreiro descobriu a ligação entre Bachman e King.

Muito já se falou sobre King não saber fechar histórias. Sinceramente, não acredito que seja um dos fortes do autor. Em “Sob a redoma”, o final é risível a ponto de dar vontade de jogar o catatau de 900 páginas no lixo. Em “A metade sombria” o final é ok e satisfatório. Quando algumas peças se encaixam um pouco mais à frente da metade, já dá para imaginar o que vai acontecer no final.

Uma leitura divertida, mais de 400 páginas que passaram como um bom final de semana.

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O livro foi enviado pela editora.

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