Netflix com o Poderoso – As três mortes de Marisela Escobedo
por Patricia
em 08/03/21

Em dezembro de 2008, na pobre e violenta Cidade de Juaréz, no estado de Chihuahua, no México, Rubí Escobedo desaparece. Ela tinha 17 anos e uma filha recém nascida. O companheiro, Sergio Rafael, disse que ela havia fugido com outro. Para sua mãe, Marisela, isso não fazia sentido. Então ela começou a mover mundos e fundos para encontrar a filha.

Pouco tempo depois, ela recebe a ligação de um jovem que morava no mesmo bairro que Rubí e Sérgio e conta que um dia ele apareceu pedindo ajuda para carregar alguns móveis. Os móveis eram, na verdade, um corpo. O de Rubí.

Marisela convence a testemunha a fazer uma denúncia formal para que pudesse pressionar a polícia, mas não haveria investigação de homicídio sem um corpo. Então ela se aproveita de uma viagem de Sérgio para fora do Estado para denunciá-lo por cruzar a fronteira com uma menor de idade sem a autorização da mãe que, segundo ele mesmo, estava viva. Quando é preso, a primeira coisa que Sérgio diz é: “não fui eu que a matei”. Em pouco tempo a polícia o convence a apontar onde estava o corpo.

A primeira morte de Marisela foi quando teve que buscar os ossos de sua filha em um aterro.

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A cidade de Juaréz é conhecida pela violência contra mulheres e, uma das entrevistadas explica, o sistema acusatório foi implementado para que se combatesse a impunidade desse tipo de crime. Sérgio Rafael foi o primeiro a ser julgado em um caso de feminicídio no Estado.

Em abril de 2010, começa o julgamento. Em suas declarações, Marisela diz que não perdoará Sérgio e, na sua vez, ele diz que sabe a dor que causou e não espera perdão. Um caso claro e transparente.

A segunda morte de Marisela foi quando o tribunal absolveu Sérgio de todas as acusações. Nas fitas do julgamento, que o diretor Carlos Pérez Osorio coloca na íntegra, ela é vista gritando e desesperada assim que a sentença é lida. A morte de sua filha não seria vingada. A dor é paupável.

Todos os dias ela passou a andar 10km da delegacia até o Tribunal e, em entrevistas, chamava o julgamento de um teatro que havia matado sua filha pela segunda vez. Ela se aproximou de advogados de direitos humanos para tentar uma nova audiência ou reverter a decisão. No Tribunal de Apelação, Sérgio Rafael é condenado. Mas aí, ele já estava foragido.

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De novo, sem o avanço da busca pela polícia, Marisela e sua família tomaram a situação em suas próprias mãos. Começaram a ir de cidade em cidade entregando a ordem de prisão, protestando. Ela caçou Sérgio pelo país e o encontrou, mas com um trabalho absolutamente amador da polícia, ele escapou.

Descobriram que Sérgio havia entrado para o cartel dos Zetas – um dos mais perigosos do país. Sem expectativa de justiça, Marisela e a família passam a acampar na frente da sede do Governo do Estado para chamar a atenção dos políticos que, talvez, pudessem fazer algo.

A terceira morte de Marisela foi um tiro na cabeça enquanto protestava pela morte de sua filha.

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O documentário é forte porque não se escusa de tratar do tema que vai além da morte de Rubí. Nos últimos cinco anos no México o número de feminídios cresceu 137%. Em Juaréz, estima-se que mais 700 mulheres tenham sido assassinadas entre 1990 e 2000.

A chancela do Estado à violência é clara nas desculpas esfarrapadas dos promotores mais preocupados com suas próprias reputações do que com o papel do Governo. É risível o nível da cara de pau de um procurador em dizer que há falhas, sim, mas a maioria dos processos dorme “o sono dos justos” e está devidamente arquivado. Ao final do documentário, sabemos que 10 mulheres são assassinadas por dia no país e 97% dos casos não são resolvidos.

Isso porque Marisela ainda tinha certo privilégio de classe com sua empresa e recursos para suas peregrinações. O que acontece com mulheres pobres que ninguém escuta?

Mais além do México, a América Latina como um todo é tão famosa pela violência contra as mulheres que já ultrapassou os limites da vida real, invertendo a ordem que já conhecemos. Aqui, a arte imita a vida e a morte violenta de mulheres já foi tema de diversas obras. Na literatura podemos citar 2666 de Bolaño, Reze pelas mulheres roubadas de Jennifer Clement, Garotas mortas de Selva Amada, Temporada de Furacões de Fernanda Melchor, para listar apenas alguns.

Esse é daqueles documentários importantes que vai servir de um dolorido lembrete sempre que esquecermos da realidade.

Não quero que a morte de minha filha tenha sido em vão. Os homens que costumam violentar as mulheres vão saber que as sentenças não estão só no papel. [Marisela Escobedo]

Postado em: Resenhas
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