Netflix com o Poderoso – Elize Matsunaga: Era uma vez um crime
por Patricia
em 03/08/21

Nota:

Em 19 de maio de 2012, o empresário Marcos Matsunaga – futuro Presidente da empresa Yoki – desapareceu. A suspeita era de que ele havia sido sequestrado porque a Yoki, na época, estava para ser vendida por 2 bilhões de reais para a General Mills. O desaparecimento foi alertado pela esposa, Elize Matsunaga. A polícia começou a investigar e o crime vem à tona: Elize, em um acesso de fúria e ciúmes, matou e esquartejou o marido, enfiou o corpo em duas malas e o jogou, em partes, numa mata a 30km de São Paulo. Marcos foi encontrado no que foi descrito como um “quebra-cabeça macabro”. Essa é a premissa do documentário “Elize Mtsunaga – Era uma vez um crime”.

O documentário começa com a primeira saída de Elize da prisão desde 2012. Ela chora ao pensar em rever a filha que tinha apenas 1 ano quando foi presa, comenta o quanto era apaixonada por Marcos e como o relacionamento era harmonioso. Até Elize descobrir que ele tinha uma amante. Ela diz que, aos poucos, Marcos mudou e passou a ser verbalmente abusivo ameaçando internar Elize em um sanatório. Ela ficou apavorada com essa possibilidade e quando disse que ia embora, ele ameaçou matá-la.

Seis meses depois do nascimento da filha, Elize contratou um detetive particular para verificar sua suspeita de que Marcos tinha uma amante. No dia 18 de maio, Marcos foi filmado com uma mulher e o detetive passou tudo para Elize. No dia 19, dia do crime, Elize o confrontou. Quando falou do vídeo, ela diz que ele a estapeou e quando ela estava com a arma na mão, ele a atiçou a atirar, chamando-a de fraca.

No 2o episódio temos um show de machismo: homens dizendo que a vida dela com um homem rico era o mesmo que ganhar na loteria, que a vida que ela tinha era de princesa, que ela tinhas muitas bolsas de grife, que ela tinha dado o golpe do baú. Ela assassinou o marido com medo de perder o status que o dinheiro lhe havia trazido, já que vinha de uma família humilde, dizem. Quando vem à tona que Elize já havia sido prostituta, aí a coisa toda vai ladeira abaixo.

No caso todo, a principal pergunta sempre foi: por que esquartejar o corpo? E Elize, que tinha treinamento como enfermeira de centro cirúrgico, explicou que precisava tirar o corpo do apartamento porque tinha medo de ser presa e a única forma de tirá-lo de lá era em partes. Ela também explica que tem pesadelos com a situação e que se estivesse em um lugar mental melhor, nunca teria feito isso.

A produtora entrou na justiça em 2019 para ter permissão de entrevistar Elize e este é, definitivamente, o trunfo do documentário e, com isso, temos também uma versão muito mais específica do que aconteceu. Elize contextualiza o relacionamento e toda sua violência – o que inevitavelmente humaniza muito do próprio crime. Para contrabalancear isso, também entrevistam dois advogados da família Matsunaga – ninguém da família aparece a não ser nas fitas do julgamento.

Porém, tem algumas cenas que são absolutamente desnecessárias: precisamos ver Elize chorando no banho ou na Igreja? E o jornalista que deu o furo e sorri quando diz que a pauta era boa porque “as pessoas adoram um mistério e adoram inventar historia” e depois defende uma teoria de que há outras pessoas envolvidas sem qualquer prova?

No quesito “papel da mídia”, este doc tem uma diferença importante dos demais produzidos pela Netflix sobre casos similares: fala menos que o normal do circo midiático em torno do crime. Talvez porque Thaís Nunes, jornalista investigativa que cobriu o caso na época, é uma das consultoras do documentário e aparece entre as entrevistadas analisando o caso.

Uma coisa clara nesse documentário é que continuamos como uma sociedade maniqueísta quanto aos conceitos de inocência e culpa, esquecendo que as pessoas raramente são apenas uma coisa. Neste caso, Elize parece ter sido tanto vítima de um relacionamento tóxico quanto é culpada de assassinato.

Postado em: Netflix
Tags:

Nenhum comentário em “Netflix com o Poderoso – Elize Matsunaga: Era uma vez um crime”


 

Comentar