Participação Especial – Coming through slaughter
por Poderoso
em 20/07/20

Nota:

Por Raphael Pantet

Nova York talvez seja a cidade considerada a meca do jazz devido ao seu período de dominância; Charlie Parker, Thelonious Monk, Miles Davis, John Coltrane foram postos a prova lá, examinados por seus pares a cada noite; Chet Baker precisava convencer plateias de jazzistas da cidade porque sucesso na costa oeste não era suficiente. De certa forma a cidade era o rito de passagem, dos anos 40 aos anos 60, para confirmar em qual divisão da cena um músico poderia jogar, se tinha lugar garantido em algum dos clubes na 52nd Street ou se era melhor voltar para casa. No entanto antes de NY existe New Orleans, o provável berço do jazz, e Louis Armstrong, um dos primeiros músicos negros a ter sucesso na sociedade branca americana e internacionalmente, armado de trompete, corneta e cordas vocais. E ainda antes houve Storyville, bairro na própria cidade e seu distrito da luz vermelha, e Buddy Bolden, de corneta e grupo de cinco, tocando alto apenas de ouvido, sem partituras, e criando algumas das estruturas elementares do jazz como o Big Four, se afastando do ritmo de bandas marciais.

De Bolden sabemos muito pouco: há uma fotografia de seu grupo talvez de 1905, a única sua e na qual seu rosto está parcialmente apagado; nasceu em 1877 na própria cidade; tocava corneta como se fosse morrer a cada noite e ensurdecer a platéia; fez sucesso tocando no bairro citado entre 1900 e 1907, quando foi internado em um manicômio no interior da Louisiana. A partir desses dados esparsos Michael Ondaatje – poeta e romancista canadense nascido no Sri Lanka, autor de O Paciente Inglês – criou a novela Coming Through Slaughter (1976, lido no original e traduzido como Buddy Bolden’s Blues pela Companhia das Letras), um relato ficcionalizado de parte da vida do cornetista. O próprio título permite múltiplos significados e chama atenção – em português poderia ser “Atravessando a chacina” ou no sentido de aviso da que se avizinha, como “Lá vem a chacina” (ao final há um sentido adicional) -, uma metáfora para a vida degradada do músico, obcecado pela morte, pelo álcool e por mulheres, e seu declínio psicológico.

Para transmitir a sensação de fragmentação do personagem principal, Ondaatje cria cenas separadas cada uma com um determinado ponto de vista, empregando fluxo de consciência, pseudo-depoimentos de conhecidos, diálogos sem travessões (a clareza se dá de outra forma, nunca confundindo o leitor), primeira e terceira pessoa. Esta multidão de recursos cria uma ambiência polirítmica, uma mimese da esquizofrenia de Bolden e também de seu estilo musical sincopado, cada episódio como uma nota oculta e alternando entre agressão improvisada de sopros e uma solidez de contrabaixo. Outra técnica interessante é utilizar outros personagens históricos, como E.J. Bellocq – fotógrafo conhecido por registrar inúmeras imagens de Storyville no início do século XX – e os membros da banda do cornetista, aprofundando as facetas do personagem. O ritmo das frases também é marcante, e claramente o autor escreveu uma novela pensando como poeta, criando parágrafos poderosos como as duas notas de “So What”.

Outro tema levantado é a relação com o espaço da música dentro da comunidade negra nos Estados Unidos. É comum, de certa forma até hoje com o hip hop, a própria comunidade permitir a existência de dois espaços sem contato entre si: o sacro, a vida dentro da igreja, família, música gospel, os hinos espirituais; e o profano, o blues, o jazz, as bebedeiras, a promiscuidade. Seria fácil abordar esses pontos com algum moralismo maniqueísta ou cínico – muitos músicos negros começam a praticar instrumentos por causa do gospel e, por tabela, da igreja -, Ondaatje, felizmente, evita a armadilha ao focar nos múltiplos aspectos da vida de Buddy, seu tablóide alimentado por relatos de prostitutas, suas desaparições, seu emprego como cabeleireiro – a primeira vez que encosta numa corneta é quase na metade do livro. Talvez a tônica da vida de Bolden seja seu descaso por si próprio se traduzir num dar de ombros para todo o restante, sem exceções.

Outro eco interessante da obra é o legado de relações amorosas destrutivas entre negros. É possível ver um paralelo com o disco Lemonade de Beyoncé, onde o peso da escravidão e da separação entre pares – entre escravos da casa e dos campos, frequentemente jogados uns contra os outros pelos donos das plantações como maneira de manter controle; desconfiança, o receio de ser magoado antes devido a inexistência de elos familiares; e abuso de poder, a sujeição das mulheres e sua manutenção pela força, por outros escravizados ou pelos donos. A artista trata estes conflitos como uma maldição geracional atravancando relações mais profundas e significativas entre negros, e em parte é o que vemos nessa novela: Bolden no início leva os filhos para a escola, é presente, mas pouco depois passa a desconfiar de Nora Bass, sua esposa, e desaparece sem aviso ou explicação. O desenvolvimento desse fio narrativo reforça os pontos de vista explorados por Beyoncé e do próprio livro.

Ao fim, os capítulos curtos e variados, a linguagem altamente poética, as situações e conflitos, e os ambientes – o autor dedica atenção suficiente a descrições quando necessário, os ritmos e sons no geral enfatizam a atmosfera da cidade e época – se mesclam para criar uma obra densa e potente. Apesar de sua qualidade é compreensível não ser tão conhecida quanto seus outros romances, tratava-se da primeira investida de Ondaatje na ficção, em aspectos formais nenhum de seus romances subsequentes parece combinar gêneros e experimentações como Coming Through Slaughter. Numa metáfora, que os chamados (“call”) da literatura nesta obra tivessem resposta (“response”) na música décadas depois é prova de seu poder. Seria como um diálogo geográfico de Bolden com Armstrong, e psicológico e musical com Parker, preparando o terreno do invisível, quiçá inevitável. Alguns livros, este é o caso, têm a rara capacidade de reverberar no ainda inexistente.

***

He was the best and the loudest and most loved jazzman of his time, but never professional in the brain. Unconcerned with his crack of the lip he threw out and held immense notes, could reach a force on the first note that attacked the ear. He was obsessed with the magic of air, those smells that turned neuter as the revolved in his lung then spat out in the chosen key. The way the side of his mouth would rag a net of air in and dress it in notes and make it last and last, yearning to leave it up there in the sky like air transformed into cloud. He could see the air, could tell where it was freshest in a room by the colour.

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