Participação Especial – Desgarrados
por Poderoso
em 27/05/20

Nota:

Por Raphael Pantet

Apesar de serem quase um terço dos brasileiros é curioso como há pouco aprofundamento na representação de evangélicos em produções de arte brasileiras, exceção feita a telenovelas direcionadas a este público. Segundo o Datafolha em pesquisa de 2016 cerca de 29% do país se considera como tal, e embora católicos ainda sejam maioria o olhar relacionado àqueles exige esforço para fugir de estereótipos associados a atraso, opressão e violência. Felizmente Desgarrados, de Eda Nagayama, propõe um olhar interessado e participante. Não se trata de um livro sobre religião ou de mencionar a fé proferida pelos personagens, e sim mostra características claras de suas preferências religiosas.

Publicado em 2015 pela saudosa Cosac Naify – republicado pela editora do Sesi-SP em 2018 – e primeira novela da autora, o livro acompanha duas figuras principais sem nome: uma mulher a procura de sua fé recém-perdida e um pastor inseguro, solitário. Ao flanar por igrejas variadas pela periferia de São Paulo em busca do que sente se esvair a mulher encontra a igreja do pastor, improvisada numa garagem com cadeira laranjas, onde um olhar ambíguo trocado entre ambos provoca dúvidas. O título faz alusão ao conceito do Bom Pastor na Bíblia e iguala os dois personagens a ovelhas perdidas, ao pastor traria mais alegria reencontrá-las frente as outras, assim como a alegria de um pecador salvo traria uma alegria superior a Deus do que os justos em seu rebanho.

Para refletir um raciocínio que não ousa ser finalizado, questões as quais os personagens não se permitem sequer pensar, Nagayama usa apenas frases curtas durante toda a obra enquanto passeia pelos pontos de vista de cada personagem, secundários inclusos. O uso do discurso indireto livre com toques de fluxo de consciência favorece uma linguagem poética, comum a todos os participantes, e as frases diminutas mimetizam os pensamentos inomináveis pois são apenas fragmentos de sentenças – esta é uma novela composta de afrases -, e em situações específicas criam uma tensão inusitada para os leitores, uma expectativa de explosão que também são traduções de São Paulo. Com isto Nagayama usa suas frases à maneira de produções cinematográficas e literárias da primeira década dos anos 2000, uma opção por um estilo naturalista de filmar, fotografar e escrever a cidade, analisando pessoas e situações como produtos de seu ambiente e tentando captar a própria promessa de violência a qualquer instante.

Simultaneamente esta escolha é um dos pontos interessantes e o fraco deste trabalho. Ao optar por uma linguagem estacada, Nagayama acaba por travar o leitor e o andamento do texto, o que pode cansar a leitura de cerca de 120 páginas por muitos dos pontos finais serem arbitrários, e atrapalharem a fluidez – o uso de vírgulas, por exemplo, não impediria o efeito fragmentado mesmo sendo uma alternativa menos radical e marcante. Esta opção seria mais eficiente para alguns dos momentos líricos do livro, naturalmente adequados para uma linguagem rítmica, sonora. Além disso, uma maneira apropriada de mimetizar a correria diária do transporte público, trajetos e todas as histórias que se encontram neste momento seria utilizar períodos longos, que fariam o leitor correr junto com o texto e os personagens, alternando com isto os curtos. Ao retratar mentes paralisadas diante da possibilidade de pecado, a autora acaba por paralisar o próprio escrito.

Apesar disso, Nagayama consegue criar personagens com conflitos envolventes, amarra as tramas com êxito e tem ótimo efeito no uso das frases curtas em cenas específicas. Faz um retrato interessado de uma parte da população que precisa ser mais representada na cultura brasileira, ao menos em meios seculares. A autora comenta em vídeo no YouTube ter estudado em colégio católico, e mesmo não sendo evangélica pôde criar dois seres periféricos assim como penetrar suas psiques, motivações, e desviar das armadilhas embutidas nesta proposta. Esse potencial de alteridade é, ao fim, um dos grandes temas explorados indiretamente nesta novela. Nisso, também acessa uma potência da literatura exercida desde o momento no qual sumérios, acadianos, babilônios e assírios eternizaram Gilgamesh em pedra e poesia.

***

Naquela noite. Como em outras. Muitas, tantas. A mulher olha para o pastor. Ali está o sorriso. As palavras. A mesma alegria que ela sempre tomou por fé. Deus vivendo dentro dele. Por um instante. O sorriso. Falso. Ela olha para as pessoas ao redor. E não compreende. Súbito. Precisa ir. Precisa ir agora. Fecha a Bíblia. Sem passar o zíper. Sai.

Vai.

Postado em: Participação Especial, Resenhas
Tags: , ,

Nenhum comentário em “Participação Especial – Desgarrados”


 

Comentar