Participação especial – Holocausto Brasileiro
por Poderoso
em 04/02/14

holocaustobrasileiro

Por Juliana Ghidini

Muito bem escrito pela premiada jornalista Daniela Arbex, o “Holocausto Brasileiro” retrata uma tragédia nacional ainda pouco conhecida, mostrando através de relatos de sobreviventes e ex-funcionários, o funcionamento do maior hospício brasileiro por mais da metade do século XX e, mesmo assim, pouquíssimos brasileiros (mais velhos e mais jovens) sabem ou já ouviram falar do “trem de doido” localizado em Barbacena, Minas Gerais.

Entre homens, mulheres e crianças (sim! crianças!) que recebiam cargas diárias de choque, alimentação precária, andavam semi nus, bebiam sua própria urina e deitavam-se entre as fezes, cerca de 70% deles não foram diagnosticados com doenças mentais. Eram pessoas tímidas, epiléticos, esposas das quais os maridos queriam se livrar, filhas de fazendeiros que engravidaram antes do casamento, presos políticos, homossexuais entre outros.

Uma vez lá dentro, tornavam-se propriedade do Estado, sendo esquecidos por ele e pela sociedade. A situação começa a tomar outro rumo em meados da década de 70; com a visita de Foucault e com os avanços da psiquiatria no Brasil. Até então, a psiquiatria no Brasil era atrasada e com a visita do filósofo/psiquiatra francês e alguns outros médicos estrangeiros, alguns médicos e jornalistas começaram a denunciar o Colônia que foi chamado de “o campo de concentração brasileiro” – aqui você encontra um excelente texto sobre a reviravolta do Colônia e da psicologia brasileira e alguns outros exemplos da barbárie que ocorreu ali.

No final da década de 90, assim que desativado, o Colônia foi transformado em Museu, ainda que muitos políticos da época tenham feito de tudo um pouco para evitar que viesse a público essa parte desumana de nossa História. Há ainda um documentário (tristíssimo!) de aproximadamente 30 minutos chamado “Em nome da razão”, filmado no interior do Colônia em 1979 pelo cineasta Helvécio Ratton.

Holocausto, claro, remete aos campos de concentração nazistas. Mas a expressão tem mais profundidade: de acordo com o Holocaust Memorial Museum, o que determina um holocausto é “perseguição e extermínio sistemático”, principalmente quando apoiado por forças governamentais. O Brasil, portanto, não passou incólume de barbáries que beiraram o genocídio. Estamos falando de 60 mil pessoas que morreram pela ineficácia, ou falta de vontade, do sistema.

Recheado de fotos feitas por jornais da época, “Holocausto Brasileiro” foi uma das leituras mais doloridas que já fiz. Tão dolorida que demorei quase dois meses pra finalizá-lo. É impossível não sentir a dor e a emoção nos relatos. Chorar litros em cafés ou dentro do ônibus era normal. Daniela escreve de uma maneira bem direta, clara e objetiva. Não é a toa que ela tem 20 prêmios nacionais e internacionais. O prestígio é justificado em um livro que ultrapassa o tom jornalístico e entrega a verdade quer o leitor goste ou não. Vale a leitura.

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3 Comentários em “Participação especial – Holocausto Brasileiro”


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Fernanda Rezende em 17.06.2014 às 10:51 Responder

Daniela Arbex, sempre perfeita em seus textos.

Um dos melhores e piores(no bom sentido) livros que li.
Sou uma apaixonada confessa, pelos romances, biografias, ficcionais ou não, da Segunda Guerra, e é impossível não fazer a associação, sugerida no título.

Um livro intenso, emocionante, doloroso, mas acima de tudo, verdadeiro.

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Paty em 17.06.2014 às 11:45 Responder

Oi Fernanda, estamos juntas! 😀
Ler qualquer coisa sobre a 2a Guerra é um hobbie meu tbm.

Beijos.

O Poderoso Resumão » Arquivo » Revisitando – Holocausto Brasileiro em 10.08.2015 às 10:57 Responder

[…] para dar uma olhada em uma tarde de Domingo pacata e só parei quando o dia já estava escuro. A resenha da nossa convidada Juliana Ghidini já deveria ter me alertado para o que iria encontrar, mas quis ver por conta […]


 

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