Participação Especial – O beijo da mulher-aranha
por Poderoso
em 27/07/20

Nota:

Por Raphael Pantet

Por ser a arte da palavra escrita, a literatura tem pontos de contato interessantes com outras formas de expressão. Filmes se originam em roteiros, óperas precisam de librettos. John Steinbeck em Ratos e Homens (Of Mice and Men, 1937) criou uma novela-peça teatral (play-novellette), uma narrativa curta que poderia ser lida num sentido teatral ou literário. Não à toa foi adaptada para aquele fim e outros meios, e da mesma maneira O Beijo da Mulher-Aranha(1976, edição da Editora José Olympio, tradução de Gloria Rodríguez) de Manuel Puig explora as relações de literatura, cinema e teatro através de um romance-diálogo, adaptado para tela grande em 1985 por Hector Babenco, um musical em 1993 e um episódio da série musical de televisão Katy Keene – uma prova de sua versatilidade em mesclar gêneros.

Escritor argentino, Puig nasceu em uma pequena cidade do país e ocupava suas noites acompanhando sua mãe ao cinema. Este hábito seria a maior influência em sua carreira artística, na adolescência o autor sonhava ser roteirista e diretor de filmes. Estudou alemão, italiano e francês por serem as novas línguas da sétima arte, conseguiu uma bolsa de estudos em Roma e abandonou o país natal para seguir seu sonho, no entanto o Neorrealismo em voga na Itália não dava margem para admiradores de Hollywood. Decepcionado, seu amigo Mario Fenelli lhe sugeriu escrever em seu idioma natal e tentar adaptar alguma memória de infância – disso nasceu A traição de Rita Hayworth (1969), demonstrando desde já o apreço do autor pelo lado B de Hollywood e certa cultura de massa, mal vista por intelectuais da época, incluso o círculo literário latino-americano. Em um de seus momentos mais inspirados, Puig enviou a Guillermo Cabrera Infante um cartão postal natalino comparando os grandes autores deste continente a atrizes americanas do estúdio MGM.

O Beijo da Mulher-Aranha retrata dois prisioneiros na Argentina, Valentín, militante político envolvido na luta armada, e Molina, condenado por abuso de menores – à época em muitos locais isso significa ser gay -, divindo uma cela. Os personagens se dividem entre diálogos cotidianos sobre temas de suas próprias vidas e filmes – Molina conta os que assistiu para Valentín “vê-los”, transformando o ambiente insalubre numa sala de projeção imaginária de obscuros trabalhos cinematográficos dos anos 30 e 40, do lado B hollywoodiano a propaganda nazista e zumbis. Como dependemos da memória do personagem temos trechos omitidos, obras diferentes misturadas em um só e, por isso, transmutados em uma única marcada pelas ausências, assinada pela dupla – este dispositivo propõe uma metaficção do esquecimento (do cinema, da prisão) enquanto os diálogos lembram trajetórias (infância, amores, amizades) dos personagens. 

Complementando a mistura de gêneros não há narrador imparcial, todo o livro é composto por diálogos com algumas exceções, como pedaços de fluxo de consciência e documentos oficiais da administração prisional – é um romance também nascido roteiro. Para contextualizar a ficção, Puig, gay e interessado em psicanálise, incluiu em notas de rodapé uma espécie de breve história das teorias psicanalíticas da homossexualidade, com comentários seus a propósito de educar seus leitores – o autor recusou todas as tentativas de retirada das notas, propositalmente incluídas em momentos de conflito entre Molina e Valentín, sugerindo uma desmistificação de gênero. Com isso o autor criou uma história marcada por quatro fios narrativos relacionados: metaficção (esquecimento), diálogo (lembrança), fluxo de consciência (reflexão) e notas de rodapé (política). 

Essa ambição tem alguns exageros: a quantidade de filmes projetados por Molina poderia ser menor, embora seja compreensível a opção de Puig por narrar vários de seus gêneros preferidos (são seis no total), penso em dois que poderiam ser removidos sem prejuízo da trama ou dos personagens; nem sempre há uma indicação clara de quem está falando. Em alguns momentos o leitor pode se perder e ter de voltar até um momento no qual um dos personagens diga o nome do outro. Mas isso tira pouco do brilho deste romance de linguagem agradável e ritmo bem cadenciado, e ainda dado a experimentações. Puig demonstra nessa obra seu domínio de diálogos principalmente – quase podemos ouvir as inflexões italianadas do “castexano” ríoplatense se revertemos a tradução -, e a capacidade de incluir tantos temas de maneira suave, sem pregação ou forçar conclusões para o leitor. Como não poderia deixar de ser num romance tão argentino há espaço para o humor, como na cena onde o aparato de repressão monitora uma ligação de Molina com um de seus amigos, se chamando por vários nomes de atrizes americanas, para confusão do espião que não sabe se são linguagem codificada. E se isto era mal visto por Norma Shearer (Jorge Luís Borges), Luise Rainer (Juan Carlos Onetti), Esther Williams (Mario Vargas Llosa) e Liz Taylor (Gabriel García Marquez), bem, azar o deles e talvez sorte de Julie Christie (Manuel Puig).

***

“- Estávamos em que ela ia casar com o cara do cachimbo. Sou todo ouvidos.

– Por que esse tonzinho de caçoada?

– Nada, conta, anda, Molina.

– Não, fala você do cara do cachimbo, já que conhece melhor que eu, que vi o filme.

– O cara do cachimbo não te convém.

– Por quê?

– Porque você o quer com fins não de todo castos, hein? Confessa.

– Claro.

– Bem, ele gosta de Irena porque ela é frígida e não tem que atacá-la, por isso a protege e a leva para casa, onde a mãe está presente; embora morta está presente em todos os móveis e cortinas e porcarias, não foi você mesmo que falou?

– Continua.

– Se ele deixou todas as coisas da mãe em casa, intactas, é porque quer continuar sendo sempre um menino em casa da mãe, e o que traz para casa não é uma mulher, mas uma menina para brincar.

– Mas isso é tudo da sua cabeça. Sei lá se a casa era da mãe, eu disse isso porque gostei muito daquele apartamento e como era de decoração antiga disse que podia ser da mãe, mais nada. Talvez ele o alugue mobiliado. ”

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