Participação Especial – Poemas
por Poderoso
em 31/08/20

Nota:

Por Raphael Pantet

Certas regiões do planeta parecem ter a poesia na sua própria estrutura. Seja a paisagem, a identidade ou a cultura, há um circuito para conduzir a tentativa de retratar o universo de cada ser humano em versos. Como negar o poder da reflexão lírica num país como o Chile, de um lado uma muralha natural congelada e do outro uma fluída, adaptável; é como se estar espremido entre a Cordilheira dos Andes e o Oceano Pacífico fosse o próprio espaço físico da lírica. Assim como o país na América Latina, o Oriente Médio parece ter os fatores da condução poética, o lugar onde desertos e oliveiras escondem ruínas gregas e romanas, monastérios da Cristandade Antiga e pessoas analfabetas citando versos de Rumi de cor. De tradição longa e ilustre, pagã e muçulmana, a poesia árabe tem gêneros e métricas bastante conhecidas cujo risco é aprisionar espíritos livres, ou servir de andaime para o novo. É o caso de Adonis, pseudônimo de Ali Ahmad Said Esber, sírio por nascimento, libanês por opção e habitante de Paris, porém lembrando o deus babilônio Tammuz – adotado pela mitologia grega – em seu nom de plume.

Um dos poetas discutidos de forma recorrente para vencer o Prêmio Nobel de Literatura, e palestrante na Flip de 2012, a Companhia das Letras publicou essa antologia poética do autor em tradução direta do árabe para o português (feita por Michel Sleiman, com belo prólogo de Milton Hatoum), intitulada apenas Poemas. A compilação abriga a obra de Adonis de 1957 a 2003, divindo-a em três períodos, cada um com grande variedade de formas e temas, permitindo um panorama da sua evolução: de versos livres, sem rimas ou pontuação esparsa a poemas longos, quase com ritmos de prosa e concentrados em imagens. Ainda, cada livro tem uma breve introdução de Sleiman, um apoio bem-vindo haja vista alguns poemas e versos se referirem aos aspectos mundanos e eruditos de Damasco e da cultura árabe, o maior exemplo sendo “Nos braços de outro alfabeto”, descrito pelo tradutor como “o poema que todo poeta sírio que se preze gostaria de escrever”. Outro destaque necessário desta edição são algumas reproduções de manuscritos, a maneira como o poeta escreve parece dar uma dimensão adicional de interpretação, gostaria de ver isso em mais livros independente do gênero.

Essa entrega a cultura árabe é um ponto extremamente interessante, Adonis cria uma poética Mediterrânea, mitológica, zoroastrista, mística cristã e muçulmana sem soar nostálgico ou tradicionalista em momento algum. No entanto não se trata também de uma tentativa de destruição das formas clássicas da poesia da região, e sim renová-la com uma visão modernista – a tradição é um alicerce, uma pedra fundamental de sua experimentação. Por meio dessas referências sua poesia lembra um redemoinho artístico, onde elas se relacionam mutuamente. O melhor exemplo dessa abordagem talvez seja o capítulo “O cavaleiro das palavras estranhas”, primeiro capítulo do livro Cantos de Mihyar, o Damasceno, uma série sempre iniciada por um salmo, em prosa poética, e seguido por poemas curtos sobre um homem que é “a física das coisas”, “conhece-as, chama-as por nomes que não revela” – o nascimento de um profeta inspirado no poeta Abu’l Hasan Mihyar al-Daylami, poeta de origem iraniana do século XI, zoroastrista e depois convertido ao Islã Xiita.

Outros temas recorrentes são a identidade do poeta, seu papel – há na região uma certa tradição do poeta militante, cuja ação política é a própria poesia -, e um certo exílio de si, lembrando Mahmoud Darwish, poeta palestino contemporâneo de Adonis. Enquanto o do primeiro é bastante físico e real, dado o conflito com a ocupação por Israel de sua terra natal, o do segundo é uma micro história do século XX: exilado da Síria em 1956 por ser acusado de atividades subversivas, viveu em Beirute – talvez a mais diversa, artística e liberal das grandes cidades do Oriente Médio, cantada com melancolia em seu “Celebração de Beirute, 1982” – onde publicou trabalhos famosos, como autor, jornalista e tradutor de poetas ocidentais; e mudou-se para Paris em 1980 fugindo da Guerra Civil libanesa. Em “Tumba para Nova York” Adonis reflete sobre essa luta constante contra o século-fera, como se este o estivesse a perseguir. Há também uma crítica a cidade como espelho do domínio imperial norte-americano sobre o mundo, no contexto da Guerra do Vietnã e das numerosas ditaduras brutais estabelecidas na sua própria Síria e vizinhos, sem perder de vista a nuance do poder cultural de Nova York – poetas são confrontados com políticos, bairros se opõem dando margem a um cauteloso otimismo.

Por outro lado, em alguns de seus poemas recentes há um certo exagero de abstração – o maior exemplo sendo o já comentado “Nos braços de outro alfabeto”, impossível de ser plenamente compreendido por uma pessoa que nunca esteve em Damasco -, e pode fazer o leitor se perder. Ainda assim, os momentos de beleza atingem picos raros de uma maneira bastante inventiva. Lidar com o exílio forçou Adonis a, mesclando Islã e paganismo, Mediterrâneo e deserto, Levante e Irã, poesia e mística, tradição e experimentação, retomada e ruptura, chegar ao local da identidade almejado por tantos e logrado por tão poucos: criar uma síntese, seu próprio local artístico, um Oriente pessoal.

***

“Árvore dos cílios

…e quando me resignei na ilha das pálpebras

em ser o hóspede das conchas e dos rastros

vi que o destino é um frasco

com águas e fagulhas

pronto a fazer do homem

mito ou fogo lendário,

eu ia carregado sobre os ramos

num bosque lácteo enfeitiçado

seu dia, consagrado à loucura, era

minha cidade, e a noite recinto íntimo.”

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