Participação especial – Semana de Cinema – A greve
por Poderoso
em 25/09/13

a-greve-i

(Por Daniel Mota)

Sergei M. Eisenstein foi um dos nomes mais importantes da história do cinema. Suas obras influenciaram fortemente o movimento artístico de vanguarda, que caminhava em estrada distinta ao cinema clássico que serviu de base para a indústria hollywoodiana. Revolucionário, contribuiu para consolidar o cinema como movimento artístico no início do século XX. Sua principal característica era visivelmente a forma ímpar como utilizava a montagem dos seus filmes, que agregava um caráter inovador que influenciou toda uma geração de cineastas. Algumas de suas obras de grande expressão são: O Encouraçado Potemkin (1925), Outubro: Dez Dias que Abalaram o Mundo (1928), Alexander Nevsky (1938) e Ivan, o Terrível, produzido em duas partes (lançadas em 1944 e 1959, respectivamente).

A Greve é um grande marco cinematográfico da década de 20, idealizado pelo cineasta em 1925, com apenas 26 anos. Trata-se de uma abordagem sobre uma greve dos trabalhadores russos em 1912. A obra é dividida em seis partes que narram o acontecido: agitação, o estopim da greve, fábrica parada, inatividade e miséria, provocação dos infiltrados e, por fim, a repressão violenta. Logo de início, o filme escancara uma célebre frase de Lênin: “A força da classe operária é a sua organização. Sem organização de massa o proletariado é nada. Com organização, é tudo.” Tal frase já deixa implícita a primeira parte da trama: a situação de trabalho dentro de uma fábrica, evidenciando a oposição entre empregadores (os capitalistas) e operários, bem como o abismo existente entre as partes. A caricatura se faz presente nas apresentações: os patrões têm aparências sedentárias e sádicas enquanto os operários, por sua vez, têm uma fisionomia robusta e aparentam vivacidade e honestidade.

O gatilho da história se dá na segunda parte, com o sumiço de um micrômetro, motivo pelo qual um dos funcionários vai comunicar a gerência do ocorrido. Seus superiores, no entanto, demonstram uma compreensão mesquinha e desrespeitosa da situação e acusam de imediato o funcionário de ter furtado propositalmente o equipamento, punindo-o de maneira injusta. Tal feito faz com que este funcionário, já assolado pela humilhação a que fora submetido, cometa suicídio dentro da própria empresa. É o estopim da greve: os demais funcionários se revoltam contra seus superiores, abandonam as máquinas e provocam o caos dentro da fábrica, deixando os empregadores desesperados.

Ao fim dessa manifestação, os grevistas passam a viver felizes por terem se livrado do fardo do trabalho e, enfim, dedicar mais tempo às suas famílias. Seguem fazendo reuniões objetivando seu retorno à fábrica, desde que os empregadores cumpram com algumas exigências por eles impostas, tais como aumento de salário de diminuição da jornada de trabalho. No entanto, o tempo vai passando e a ausência do trabalho com a consequente falta de renda começa a modificar o grau de satisfação dos trabalhadores. A situação de miséria começa a bater à porta, gerando crises de várias naturezas, inclusive conjugais, vindas das esposas irritadiças com a falta de alimento e demais condições essenciais de vida. Ao mesmo tempo, as fábricas encontram-se paradas e os empregadores afundados em solidão. Nesse momento já começam a serem mostrados os indícios da vingança dos patrões, no momento em que conseguem infiltrar pessoas de sua confiança junto ao movimento. Um aspecto curioso a ser destacado é que os infiltrados possuem alcunhas de animais furtivos, como macaco, raposa e coruja, que juntamente com a aparência dos capitalistas configuram o claro uso da caricatura por parte do Eisenstein.

E assim como planejado, os patrões se infiltram no movimento grevista, conseguem criar uma situação de vandalismo cuja culpa recai sobre os operários e assim começa a repressão violenta (violenta mesmo!) sobre eles, que acabam totalmente massacrados por policiais e bombeiros. As cenas do massacre dos operários são divididas com cenas de esquartejamento de uma vaca, o que dá uma sensação um tanto incômoda ao espectador, mas que pode ser entendida como uma metáfora quando favorecida pela geniosa montagem em paralelo empregada pelo diretor nesse momento do filme.

A Greve é um filme que levanta muitas discussões. Sejam elas a respeito da ideologia nele embutida, ou sobre toda a atmosfera histórica pela qual se passa a trama, ou pela intenção do diretor em fazê-lo, entre outras. Aqui, me limito apenas a apresentá-lo e deixar o convite para quem quiser assistir. A quem interessar, valerá muito a pena!

Postado em: Participação Especial, Semana de Cinema
Tags:

Nenhum comentário em “Participação especial – Semana de Cinema – A greve”


 

Comentar